“Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”.

Não fiquem chocados por eu usar estes versos do Nelson Cavaquinho pra iniciar um texto em plena terça-feira. Pode ler até o fim sem precisar esconder objetos cortantes à mão. Prometo.

A introdução lhe gelou a espinha pois na era da informação, a tristeza foi rechaçada à seu devido lugar conforme o senso comum: no fundo do poço, onde ninguém vê. O que interessa é ser feliz! No país do carnaval, a felicidade é como político honesto. De nada serve ser, é preciso parecer ser. Assim, cada um acorda o publicitário dentro de si e cria belos slogans como “Não tenho tempo pra mais nada. Ser feliz me consome” e vive dentro de um comercial do Pão de Açúcar exposto no intervalo de um contagiante romance com o Brad Pitt. Me engana que eu gosto e não tropeça no meu ranço!

Minha desconfiança não é porque tenho me debruçado na tragicomédia soturna do Nick Hornby, nem porque uma amiga tentou dar fim à vida, nem porque é fevereiro e faz um calorão aqui no Sul, nem porque andei exagerando no Woody Allen. E o coração velho vai bem obrigado, bate num dia, apanha no outro, antes que se perguntem. É porque essa euforia estética tem me dado a impressão de caminhar numa fabulosa aldeia de fadas, duendes, chapeuzinhos, vagalumes e sorrisos adquiridos no consultório do Pitangui, em suaves prestações.

Ok, me rendo. Suponhamos que você É feliz como anda resmungando aí na frente do texto. Dê um passeio na floresta (te poupei de ler selva) e antes do lobo te pegar, vais passar pelo colega invejando sua promoção, pela TPM da namorada, pelo mau-humor do marido, pela depressão do pai, pelo assassinato estampado no jornal, pela epidemia do crack, pelo trânsito caótico, pelo racismo, pela falta de paciência, pelas letras do Mc Catra, pelos desabrigados e opa! Quase que você tropica no mendigo amputado aí no chão. Recapitulando: você É feliz? Não, você é doente mental ou vive bêbado ou tem um poderoso filtro para os males que vem de trem ou seu egoísmo flutua no céu, inflado feito um zepelim por cima da desordem.

A felicidade não é plena e estática, sendo fragmentada em doses homeopáticas de alegria. Pode-se ESTAR feliz, mas SER feliz só o anão aquele da Branca de Neve (e olha o Walt Disney aí outra vez!). A felicidade é uma isca pendurada na altura dos olhos nos movendo, posto que ser feliz plenamente significa estar morto. Ou vivo, porém trilhando caminhos pra descer na estação das sensações vizinhas nunca experimentadas, juramenta Gandhi.

O bem estar (não vou lhe dar o gosto de dizer “felicidade”) é como música, tem a hora da introdução, tem a hora da letra, tem a hora do refrão, do fim, do solo. E o solo é essencial. É aquela tristeza engraçada que nos aproxima de nós mesmos e quando revelada, também nos encosta nos outros. O que faz você feliz? No meu caso, encontrar seres fabricados de sangue, lágrimas e feridas no meio da matilha de candidatos a garoto propaganda do McDonald’s. Poder contribuir, mesmo que seja uma contribuição ridícula, para melhorar o dia de alguém.

Amo muito pessoas de verdade, amo muito os que choram na minha frente, amo muito quem ri com o cérebro, amo muito quem porta carteirinha de otimista apesar de tudo, amo muito quem abre-me alas e braços pra eu ficar triste se eu quiser, amo muito quem aceita a condição de que nem as mães são felizes, desdizendo Cazuza, com a mesma audácia que iniciou estas linhas.

Para meus amigos que estão…SOLTEIROS
O amor é como uma borboleta. Por mais que tente pegá-la, ela fugirá.
Mas quando menos esperar, ela está ali do seu lado.
O amor pode te fazer feliz, mas às vezes também pode te ferir.
Mas o amor será especial apenas quando você tiver o objetivo de se dar somente a um alguém que seja realmente valioso. Por isso, aproveite o tempo livre para escolher .

Para meus amigos…NÃO SOLTEIROS
Amor não é se envolver com a “pessoa perfeita”, aquela dos nossos sonhos.
Não existem príncipes nem princesas.
Encare a outra pessoa de forma sincera e real, exaltando suas qualidades, mas sabendo também de seus defeitos.
O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.

Para meus amigos que gostam de…PAQUERAR
Nunca diga “te amo” se não te interessa.
Nunca fale sobre sentimentos se estes não existem.
Nunca toque numa vida, se não pretende romper um coração.
Nunca olhe nos olhos de alguém, se não quiser vê-lo derramar em lágrimas por causa de ti.

A COISA MAIS CRUEL QUE ALGUÉM PODE FAZER É PERMITIR QUE ALGUÉM SE APAIXONE POR VOCÊ, QUANDO VOCÊ NÃO PRETENDE FAZER O MESMO.

Para meus amigos…CASADOS.
O amor não te faz dizer “a culpa é”, mas te faz dizer “me perdoe”.
Compreender o outro, tentar sentir a diferença, se colocar no seu lugar.
Diz o ditado que um casal feliz é aquele feito de dois bons perdoadores.
A verdadeira medida de compatibilidade não são os anos que passaram juntos;
mas sim o quanto nesses anos vocês foram bons um para o outro.

Para meus amigos que têm um CORAÇÃO PARTIDO
Um coração assim dura o tempo que você deseje que ele dure, e ele lastimará o tempo que você permitir.
Um coração partido sente saudades, imagina como seria bom, mas não permita que ele chore para sempre.
Permita-se rir e conhecer outros corações.
Aprenda a viver, aprenda a amar as pessoas com solidariedade, aprenda a fazer coisas boas, aprenda a ajudar os outros, aprenda a viver sua própria vida.

A DOR DE UM CORAÇÃO PARTIDO É INEVITÁVEL, MAS O SOFRIMENTO É OPCIONAL! E LEMBRE-SE: É MELHOR VER ALGUÉM QUE VOCÊ AMA FELIZ COM OUTRA PESSOA, DO QUE VÊ-LA INFELIZ AO SEU LADO.

Para meus amigos que são…INOCENTES.
Ela(e) se apaixonou por ti, e você não teve culpa, é verdade.
Mas pense que poderia ter acontecido com você. Seja sincero, mas não seja duro; não alimente esperanças, mas não seja crítico; você não precisa ser namorado(a), mas pode descobrir que ela(e) é uma ótima pessoa e pode vir a se tornar uma(um) grande amiga(o).

Para meus amigos que tem MEDO DE TERMINAR.
As vezes é duro terminar com alguém, e isso dói em você.
Mas dói muito mais quando alguém rompe contigo, não é verdade?
Mas o amor também dói muito quando ele não sabe o que você sente.
Não engane tal pessoa, não seja grosso(a) e rude esperando que ela(e) adivinhe o que você quer.
Não a (o) force terminar contigo, pois a melhor forma de ser respeitado é respeitando.

Mario Quintana

Sabe aquela sensação de que tudo virou uma bola de neve e estás prestes a despencar ladeira abaixo? Passa…
Sentir raiva de alguém por não aceitar atitudes mesquinhas e egoístas? Passa…
O desespero por não encontrar uma solução para algum problema? Passa…
Brigar feio com alguém, jurar não dirigir mais uma palavra sequer pro vivente? Passa…
Amar uma música de paixão e sair pulando quando ela toca na rádio? Passa…
Não dormir de jeito nenhum sem o travesseiro preferido? Passa…
Casar, sonhar em ter filhos, uma família linda e achar que vai ser feliz para sempre? Passa…

Problemas vem e vão. Dependendo do dia e de quão perto está a TPM, ele pode ser maior ou menor.

Sinto raiva de algumas pessoas pelo que elas fazem, mas quem disse que não posso fazer a mesma coisa amanhã?
Nada como uma briga para tornar uma relação, seja ela de amizade ou amorosa, mais forte.
Soluções aparecem. Basta ter paciência. Se não se resolver, é porque já está solucionado.
Sempre virá uma música nova para dançar e sair pulando de novo por aí.
Nada como se sentir tão cansada, mas tão cansada, para não se importar com qual travesseiro abrigará a cabeça pesada durante o sono.
E, enfim, um casamento pode não durar pra sempre. Basta continuar tendo fé de que a felicidade venha…mesmo que seja acompanhanda só do cavalo branco!

Por que toda essa reflexão? Porque depois de ter passado um final de semana horrível, trabalhando e brigando com Deus e o mundo… chega a segunda-feira e parece que nada aconteceu…Isso é a maior prova de que TUDO PASSA!!!

Tem horas que percebemos que o amor subiu no telhado e lá ficou. Difícil mesmo é catar resíduos de coragem para alojar seus despojos mortais num canto qualquer do coração, da memória ou dentro de uma caixa de papel prensado com fita mimosa. Se a relação vem de outros carnavais, mas sempre traja a mesma fantasia e o silêncio ensurdece os tímpanos feito rojão de festa junina, a razão de estarmos juntos veio a falecer, só falta enterrar.

O adeus foi criado para ser dito e por vezes é melhor romper rápido como remover Band-Aid de ferida em braço peludo, vagando logo o coração para que outro alguém possa adentrar na avenida. Bem pior é sentir-se tão só quanto o corcunda de Notre-Dame, mesmo com um “ser” para a compartilhar o oxigênio e mais nada. Agora já não importa se no sábado de carnaval, o desfile abre-alas tirou nota 10. Um relacionamento não vai mais dar samba perante feridas abertas, brigas divididas em mais capítulos que Os Lusíadas e conversas unilaterais que lembram uma encenação caseira dos monólogos da vagina.

Ela já não comenta uma música nova, pois ele tecerá somente um rasteiro comentário. Ela fantasia visitar Paris no inverno europeu e ele nem sonha, ele acabou de decidir se associar ao clube de futebol pelo qual tem fascínio e ela não tem nem ideia. Ele já não dá mais a vida por ela, e ela nem faz mais questão.

Todo carnaval tem seu fim e a quarta-feira serve para juntar as cinzas, parar de brincar de ser feliz e pensar nas próximas fantasias que o levarão novamente para o grupo especial – aquele ajuntamento miúdo de pessoas pouco chegadas a um baile de máscaras. Amém para que toda quarta-feira de cinzas dure um só dia e não um ano inteiro.

Foto: Radioteleginenhaiti.com, EFE

Os últimos dias foram diferentes. Hoje, dia 16 de janeiro. é que pude me dar conta que desde que 2010 deu o primeiro “oi”, as tragédias não pararam de responder “olá”. Escalada para trabalhar no ano-novo, o único período calmo na redação foi o dia 31, o último de 2009. Alguns assaltos, acidentes no tränsito em direção à praia, tudo comum, para quem trabalha em um veículo que registra tudo que acontece 24 horas por dia, sete dias por semana.

Naquela noite não me despedia apenas de um ano que não foi nada bom para  meu coração, mas dava as boas vindas para um outro, no qual a natureza resolveu se manifestar. Sim, a natureza! Ou por acaso o deslizamento em Angra, as chuvas no RS e os tremores do Haiti tem algum culpado que veste calças?

Sei que é difícil para alguém que não foi atingido diretamente por nenhuma dessas tragédias sentir de fato o que elas representam. O caso de Angra começou a ganhar comoção nacional quando a tragédia mostrou rostos e histórias das vítimas nos jornais. Não tinha como ignorar quando o Jornal Nacional mostrava os vídeos feitos pela filha dos donos da pousada mais afetada pelo deslizamento, a Yumi. Eu, que tento todas as noites arranhar algum som que preste do meu violão, sei que a guria tinha talento.

Foto: Reprodução

Só que não foi apenas pelo dom dela que a história me comoveu, mas é que assim como ela, todos somos cheios de sonhos e vidas que podem ser interrompidos quando menos se espera. Ainda mais dessa forma tão inesperada. Inesperada sim, pois por mais que ela estivesse no pé de um morro, ninguem poderia imaginar que um paraíso como aquele (sim, uma belezura. Além das fotos do Castelo de Caras, eu já estive lá e posso dizer isso) seria o cenário perfeito para que as terras viessem abaixo e destruísse tudo.

Foto: Reprodução

Chorei com a entrevista dos pais no JN, que só resolveram falar porque o Tino Marcos, renomado repórter de esportes da Globo que é amigo e hóspede há anos do casal, pediu uma gravação. Dava pra ver que eles estavam sob efeito de remédios, mas nem por isso os olhos conseguiam esconder a dor da perda. O que mais me marcou, foi quando o pai leu alguns escritos da filha, que dizia mais ou menos assim: “mesmo que eu morra, se pensarem em mim, estarei viva na lembrança de cada um de vocês”. Pronto, acabou comigo.

Mas se isso já era triste, as coisas poderiam piorar. E ainda mais perto. Li que hoje foi localizado o último corpo desaparecido da tragédia em Agudo, onde no dia 5 uma ponte sobre o Rio Jacuí desabou com muitas pessoas em cima. Entre elas, o vice-prefeito da cidade que estava ali por um pedido da Defesa Civil para verificar se tudo estava bem.

Foto: Lauro Alves

Entrevistei o presidente da Cámara dos Deputados do RS, a governadora, o presidente do Conselho de Engenharia e Arquitetura, todos consternados. Confesso que foi um pouco engraçado ouvir a Yeda Crusius dizer para os gaúchos: SE AFASTEM DAS ÁGUAS. Mas depois de ouvir um aúdio do desespero de um repórter de uma rádio que estava no local, não acreditando que estava vendo as pessoas caindo e se afogando na sua frente, meu coração sentiu a intensidade do que foi aquele horror. Minha vontade era parar tudo, sair dali, ir pra casa e trocar o canal para outro tipo de notícias. Mas no meu caso, escrever não é para quem quer. Não é para quem pode. É para quem não tem escolha.

Foto: Charles Guerra, DSM

E sem escolha, o mundo encarou mais um desastre: tremores de 7 graus na escala Richter puseram o Haiti abaixo. O pais caribenho já não era um dos mais afortunados do mundo. Durante anos, uma guerra civil empobreceu a ilha. Mas, como perguntaria um colega meu que foi chamado para trabalhar às quatro da manhã, O QUE EU TENHO A VER COM O HAITI? A resposta não é o refrão da música cantada pelo Gil e o Caetano que diz: “O Haiti é aqui”, mas outra: ELES SÃO HUMANOS COMO NÓS E PRECISAM DE AJUDA!!!!

Foto: Orlando Barría, EFE

Na quarta-feira, o Perin (colega que muito visita e comenta neste blog) me mandou alguns dados da “prima da avó dele” que é uma religiosa missionária lá. Fui atrás. Liguei para o número que ele me deu e nada. Falei com a entidade resposnável pela missão religiosa no Haiti e consegui outros telefones. As telefonistas do jornal tentavam como loucas, e conseguiram. Atendeu a irmã Rosevânea.

Ainda em estado de choque, ela tentou me descrever a tragédia, que foi cortada várias vezes por causa dos problemas para manter a ligação. Mas nessa pouca conversa entendivel, ela conseguiu me dizer que tudo tinha ido abaixo. Os prédios estavam destruídos e as pessoas desesperadas. Mas que a esperança estava numa senhora que visitava o país e iria instalar a Pastoral da Criança na cidade em que ela estava, que ficava a duas horas de Porto Princípe, capital do Haiti. Infelizmente, tive a triste missão de dar a ela a notícia que mais doeu o pais naquele dia: Zilda Arns tinha morrido. Só as pessoas que foram beneficiadas pelo trabalho da Pastoral da Criança, como eu que precisei na infância tomar soro caseiro para combater a minha desnutrição, sabe da importância do trabalho dessa senhora.

Zilda Arns é enterrada em Curitiba. Foto: Rodrigues Pozzobom, ABR

Ela não acreditava. Eu também não. O desespero tomou conta da minha reportagem. Ofereci ajuda, oração, queria poder ajudar de alguma forma, mas ela mesma não sabia a dimensão do que tinha acontecido. O próprio Perin, depois de ouvir o áudio da entrevista, me perguntou: “Pode-se dizer numa entrevista que tu vai rezar ppor ela?” Eu respondi que achava que não, mas não importava, afinal de contas, aquela ali era eu.

No dia seguinte, tive a missão de assumir o contato com os leitores em um chat e por um msn que o jornal criou para trocar informações osbre os desaparecidos no Haiti. A primeira coisa que me chamou a atenção, foi o nick de uma menina que dizia: “Pai, eles já vão te achar! Aguenta firme! Seu anjinho da guarda está com você!”

Chamei ela pra conversar e, com muito respeito e carinho, comecei a fazer algumas perguntas. Ela disse que o pai tinha ido às pressas naquela semana mesmo pro Haiti e que por isso mesmo não acreditava que ela teria o perdido assim, tão inesperadamente. A menina de 18 anos ficava o dia inteiro na internet para ver se conseguia algum sinal de vida do Coronel Zanin. Infelizmente, até hoje, ele não apareceu.

Fiz um texto, mandei pra ela, que aprovou, e publiquei. Jornalisticamente, o assunto repercutiu em todo o país. Alguns dos principais jornais brasileiros me ligaram: Estadão, Agência Brasil, O Globo, para saber o contato. Mas respeitei o desejo dela, que queria distância da imprensa, e disse que não poderia ajudar os colegas.

Fiz mais duas matérias, ambas com o final feliz. Uma sobre um sargento que está há sete meses no Haiti, sobreviveu aos tremores e daqui alguns dias poderá conhecer o filho de quatro meses que ele só viu na barriga da mulher quando partiu. E outra sobre o filho do secretário adjunto da Segurança do RS que estava dentro do prédio da ONU, mas que teve a sorte de ser protegido por uma viga. Naquele dia, trabalhei doze horas.

Cheguei em casa, deitei na cama e chorei. Chorei que nem criança, desesperadamente. Ainda mais vendo as imagens da TV que mostram que os próprios moradores são os responsáveis por tirar parentes e amigos de debaixo dos escombros, é possível ver que a ajuda é muito pouca, por mais que o mundo esteja mobilizado enviando tropas, alimentos, remédios. O que eles perderam, ninguém do mundo poderá dar de volta: uma vida normal. Pois todos os dias, a maioria deles, sempre que acordarem não terão mais a casa, os pertences pessoais preferidos, e, principalmente, integrantes da família que tanto amavam.

Para nós, restante do mundo que “não tem nada a ver” com isso tudo que vem acontecendo no mundo, fica um alerta: vamos cuidar mais da natureza, vamos desperdiçar menos água, vamos jogar lixo no lixo. As coisas que sempre ouvimos quando crianças, mas que muito não deram bola, mostra resultados hoje.

Depois de tudo isso, uma propaganda me vem a cabeça e me faz ficar assustada com que ainda pode vir. Um comercial do Greenpeace que dizia: VOCÊS QUERIAM MUDAR O MUNDO? PARABÉNS, VOCÊS CONSEGUIRAM. Um tapa na cara para quem ainda não se deu conta de que os responsáveis por tudo isso: deslizamento em Angra, chuvas no RS e tremores no Haiti, SOMOS NÓS!!!

Um amigo muito querido, conhecido pelo pseudônimo de Enrico Maldini, me enviou carinhosamente essa poesia antes de publicá-la em seu espaço eletrônico. Ele sabe que amo ler palavras docemente bem colocadas e rimadas.  Graças a Deus, tenho muitos amigos assim, que escrevem com o coração aquilo que somente esse pedaço do nosso corpo é capaz de sentir. Abaixo, as belas palavras dele…

Minhas chagas ainda perduram
Esta dor insistente permanece
As máculas, quem dera, não se curam
E meu corpo, por você, adoece

Queria eu esse calor vindo de teus lábios
O carinho e conforto de teu peito
O teu dom de cura próprio dos sábios
E teu colo como sendo meu leito

Os soros não proporcionam saúde
A moléstia não sanará com chás,
Nem com o dedilhar dos alaúdes
Nem com o homem branco de crachá

Eu não aceito o simplório tratamento
Das fortes medicações alopáticas
Apenas desejo os teus sentimentos
Servidos em doses homeopáticas

Oi, não te conheço muito bem, mas todos falam que tu é muito melhor do que 2009 (afinal de contas, vassoura nova varre bem). Pois bem, confiando nisso, listo abaixo algumas solicitações que preciso que me ajude a colocar em pratica nos próximos 358 dias, já que deixei alguns pra trás. Então, vamos lá:

- Investir mais na intelectualidade. Um cérebro bem rodado é capaz de seduzir um homem sem ter que abaixar a calcinha. 

- Afaste de mim aqueles que querem fazer com que eu me apaixone sem ter a intenção de retribuir o sentimento conquistado. Pois isso é mais sacana do que comer e ir embora.

- Ser simpatica e prestativa com todos. Mesmo com aqueles que não merecem, pois sempre tem alguém interessante olhando.

- Usufruir das coisas de acordo com o meu capital. Nada de seguir dicas das revistas femininas com cremes absurdamente caros e pouco eficientes. E não confiar em profissionais de construção que cobrem mais barato. Meu banheiro que o diga!

- Que eu não procure preencher o meu vazio me alimentando daquilo que me faça sofrer.

- Não me leve a sério, mas também não me trate como criança. Equilibrio é fundamental.

- Posso não saber o que quero em alguém, mas me conheço suficientemente bem para ver de cara o que não me fará bem, então, que eu não perca tempo com coisas e pessoas que não se assemelham com os meus valores.

- Que as tristezas sejam como as chuvas passageiras: vem e vão sem deixar grandes marcas. 

- Que a tolerância com os erros alheios seja maior que a minha insistência em querer acertar sempre!

- Que eu pratique sempre o PERDÃO. Perdoar, perdoar, perdoar, perdoar sempre. Para que eu não me prenda a briguinhas e desentendimentos que não levam a nada.

- Que eu acredite que amar sempre é o melhor remédio, mesmo que alguns acontecimentos me despertem sentimentos contrários. E que eu tenha fé que poderei cantar novamente as canções de amor do Chico Buarque sem me importar com quem está olhando, mas que eu não me preocupe quando isso vai acontecer.

- Não fazer sexo sem camisinha, sem anticoncepcional e sem atestado de HIV negativo há pelo menos três meses, pois algumas horas de paixão podem mudar uma vida completamente.

- E, enfim, não tentar me dar definições. Só atrairei aqueles que se interessam por esteriótipos. Preciso de pessoas que gostem de mim, original. Tenho que ser eu mesma. Mas não muito, claro!!

…que as pessoas que me fizeram mal este ano podiam ter um pouco de sensibilidade. Foi pedir demais!

O texto abaixo não é meu, mas da minha talentosíssima amiga Thaís Fernandes. Ela rebate o texto publicado no caderno Donna, de ZH, jornal onde trabalho, do imortal Moacyr Scliar, sobre os moradores de rua. Confira o duelo de palavras abaixo e tire suas próprias conclusões:

Moacyr Scliar e a indiferença dos Moradores de Rua

Não é de hoje que o jornal Zero Hora, através de seus repórteres e colunistas, emite opiniões equivocadas sobre a população de rua de Porto Alegre. Dessa vez, foi um texto de Moacyr Scliar no caderno Donna de 27/12/2009 que me chamou a atenção (Abaixo, texto na íntegra e link para site ZH). Do alto de seu discernimento engaiolado por um carro, ele fala o que julga ser a verdade sobre as ruas. O texto tem como destaque inicial a seguinte frase: “Morar na rua é opção e resulta, sobretudo, de uma vida infeliz”. Parece que dizendo isso desconhece um dado importante, divulgado pelo Ministério das Cidades (baseado em uma pesquisa da Fundação João Pinheiro), de que o déficit habitacional no país é de 8 milhões de moradias, e que um dos problemas principais disso é a baixa renda familiar. Ainda assim, ele não ignora as estatísticas.

Primeiro Scliar utiliza um número divulgado pela FASC de que, em Porto Alegre, há cerca de 1.200 moradores de rua. Ora, qualquer observador mais atento (até mesmo de dentro do seu confortável carro), sabe que esse número é uma estimativa muito distante da realidade. Uma conversa com qualquer servidor da FASC, responsável por essas pesquisas (como a que fiz em 2007 enquanto escrevia uma reportagem sobre o tema), esclareceria que a população de rua é algo muito mais complexo do que simples números. Segundo, utiliza a chancela do livre arbítrio para afirmar que quem mora na rua o faz por opção, como resultado de uma vida infeliz. Infelicidade que, aliás, ele não define. O discurso de que alguém mora na rua por opção faz parte do mesmo pacote opinativo dos que dizem que desempregado é vagabundo, já que trabalho não falta.

Scliar vai além. Diz que existe uma condição básica para quem vive embaixo de viadutos (sim, já que a impressão que o colunista de ZH passa é de que moradores de rua só vivem nos viadutos, como na música francesa que inicia o texto). Para ele, é necessário ser indiferente. Sim! Moradores de rua precisam ser indiferentes, já que “para essas pessoas, aquilo que incomoda a classe média em absoluto não conta”. E daí ele segue, falando da falta de privacidade e excesso de barulhos, fatores que seriam enormes empecilhos para a vida que nós, classe média, levamos. Mas não eles, moradores de rua, já que têm essa magnífica qualidade, a indiferença, e outra ainda melhor, o livre arbítrio, pois puderam escolher morar na rua. Indispensável falar da necessária e relevante observação sobre o que, além da indiferença, ajuda os moradores de rua a dormir. Para ele “a cachaça atua como um sonífero poderoso”. Dizendo isso, parece que fez uma pesquisa pessoal e descobriu que absolutamente todos os moradores de rua bebem cachaça. Interessante.

Nós, pobre classe média, não somos tão evoluídos ao ponto de abrir mão da nossa confortável vida e escolher morar na rua. Mesmo tendo, muitas vezes, vidas infelizes, famílias destruídas, problemas de auto-estima, o que fazemos, nós os egoístas, é ir sofrer em Paris. É de lá que trazemos nosso aguçado olhar para, sem ser indiferente, perceber o que se passa embaixo dos viadutos. O mais interessante é que Moacyr Scliar consegue perceber todas essas coisas de dentro de seu carro! Não precisou sequer conversar com um morador de rua.

Se tivesse saído do carro, ele poderia ter conhecido a Dona Maria, uma senhora de seus 70 anos que vende panos de prato na Avenida Protásio Alves e não mora embaixo de um viaduto. Ela dorme na rua há alguns meses, pois o casebre onde morava, na periferia de Viamão, foi destruído pela chuva. Construído em área irregular, a prefeitura da cidade não deixou que ela o reerguesse. Solução: Dona Maria “escolheu” morar na rua. Será que classifico isso como infelicidade?

Mas e por que ela não vai para um albergue? Albergues são locais para dormir, e não morar (em Porto Alegre há apenas um que funciona durante o dia, a Casa de Convivência, e tem 70 vagas diárias). Aceitam um número limite de pessoas, que começam a fazer fila nos seus portões muito antes das 18h. Porto Alegre não tem leitos suficientes para o número real de moradores de rua da cidade. Muitos antes do sol raiar é preciso sair. E ainda, para completar a lista de facilidades, não se pode freqüentar o mesmo estabelecimento por muito tempo, variando de 15 a 30 dias o tempo de permanência. Foi por isso que, voluntariamente, Dona Maria “escolheu” morar na rua, embaixo das marquises, e não dos viadutos.

Afinal, quem é indiferente à realidade? Moradores de rua e sua escolha “voluntária” de existir bravamente onde lhes é possível, ou os observadores da classe média?

Thais Fernandes – Jornalista

http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/donna/19,136,2757671,Moacyr-Scliar-A-vida-sob-os-viadutos.html

Variedades |  27/12/2009 17h10min

Moacyr Scliar: A vida sob os viadutos

No Colégio Júlio de Castilhos aprendi uma canção francesa chamada Sob as Pontes de Paris (Sous les Ponts de Paris). Dizia mais ou menos o seguinte: “Sob as pontes de Paris/ quando desce a noite/ toda a sorte de vagabundos se infiltra sorrateiramente/ e ficam felizes de encontrar onde dormir”.

Porto Alegre não tem o Sena, nem as pontes de Paris. Mas Porto Alegre tem o Arroio Dilúvio, com suas pontes e, sobretudo, Porto Alegre tem os viadutos. E ali, como na capital francesa, muita gente procura abrigo. No ano passado, um levantamento da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), órgão da Prefeitura, falava em 1200 moradores de rua. Numa cidade com mais de um milhão de habitantes não chega a ser um número muito grande. Mesmo muito pobres as pessoas acabam achando uma casa; nem que seja um barraco na periferia. Morar na rua é opção, e resulta, sobretudo, de uma vida infeliz. Quase a metade dessas pessoas tem problemas familiares; 70% vivem sós, uma situação para a qual colaboram o alcoolismo e as drogas.

Ou seja: não é só uma questão social, é mais complicado que isso.

Qual é a condição básica para viver, ou sobreviver, em baixo do viaduto? Eu diria que é a indiferença. Para essas pessoas, aquilo que incomoda a classe média em absoluto não conta. A falta de privacidade, por exemplo. Tudo que os moradores de rua fazem é público, tudo. Eles estão ali, comendo, ou bebendo, ou dormindo, ou fazendo as necessidades, absolutamente indiferentes ao olhar dos outros. Há quem não consiga conciliar o sono com barulho; não é o caso deles. Por sobre suas cabeças, no viaduto, ruge o tráfego urbano, intensíssimo num país em que o carro se tornou um indicador maior de progresso e de afluências. Isso não impede que durmam (é claro que a cachaça atua como um sonífero poderoso).

Também a noção de propriedade para eles é diferente. Sim, têm as suas coisas, que em geral cabem num carrinho de supermercado – em todas as partes do mundo os gerentes desses estabelecimentos já devem ter aceito com resignação o fato de que tais carrinhos serão sumariamente confiscados. Mas, por outro lado, muitas vezes deixam essas poucas coisas abandonadas. Na manhã do domingo passado passei sob o viaduto da Silva Só, onde vivem muitos habitantes de rua. Detive-me a contemplar um colchão. Era um colchão de espuma, velhíssimo, esburacado. Sobre ele, um cobertor, igualmente velho, esburacado. Mas, e esse foi o detalhe que me impressionou, e comoveu, o cobertor estava cuidadosamente dobrado, caprichosamente dobrado. Pensei então no homem ou na mulher que o havia dobrado.

Ao fazê-lo, talvez num ato automático e reminiscente de uma infância quem sabe vivida de uma maneira melhor, essa pessoa colocara um pouco de ordem em sua vida. Uma partícula de ordem, por assim dizer, mas que deve ter contribuído para restaurar algo da dignidade que existe em qualquer ser humano, por mais precária que seja sua existência. Ao ver o cobertor dobrado, a pessoa deve ter ficado satisfeita consigo mesma: eu não sou um traste completo, eu sou alguém, ainda existe esperança para mim.

Ou seja: sob os viadutos de Porto Alegre, como sob as pontes de Paris, a vida resiste.

Em meio aos meus delírios de 39 graus de febre, devido a uma das quinhentas amidalites que já tive, recordei essa música. Escutei ela pela primeira vez ouvindo o programa Love Songs, apresentado pelo Arlindo Sassi da Rádio Cidade (quem já não teve essa fase das noites românticas em Porto Alegre, hein?)

Lembro que foi uma noite triste. Meu namorado, que estava comigo desde o primeiro ano do segundo grau (na minha época se falava assim, e não ensino médio) tinha terminado comigo, por um motivo besta: ele não tinha grana para me dar um anel de noivado. Acontece que havia quase três que estávamos namorando, e um compromisso mais sério era inevitável. 

Insisti. Disse que era besteira, afinal de contas eu nunca cobrei. Mas não adiantou. Claro, voltamos dias depois, mas até ali eu gastei quase boa parte das minhas lágrimas daquele ano. Tempo depois fui eu que terminei, mas por perceber que aquele relacionamento não me levaria a lugar algum, pois tinha apenas 17 anos e tinha muito ainda que me apaixonar…e me decepcionar.

Larguei ele para ficar com o meu professor de informática, que duas semanas depois me deixou para ficar com outra menina. Assim é a vida. Sonhamos e planejamos uma coisa, acontece outra. Pessoas vem e vão. O que fica é o que conta, pois é o aprendizado que levamos para os próximos relacionamentos, sejam eles familiares, de amizades ou a dois, que vai fazer com que os outros queiram a gente sempre por perto.

Na adolescência é difícil perceber tudo isso. Dizem que essa fase termina aos 18 anos. Mentira. Tenho quase 30 e às vezes me sinto como se recém tivesse saído do colégio. Ainda tenho espinha, brigo com meus pais (que sempre me querem me dizer o que fazer) e sonho com um amor maior. 

Bom seria se no trabalho tivéssemos o horário do recreio para jogar conversa fora com os colegas. Ou poder sair mais cedo quando a tarefa fosse cumprida. Ou ainda ser parabenizado e ganhar um 10 pelo dever maravilhosamente realizado.

Mesmo tendo me formado, pós-graduado e ter comprado meu apartamento tenho a sensação de ter que começar do zero para continuar a seguir meus sonhos. Com certeza a tristeza do meu namorado do colégio não era apenas por não conseguir comprar um anel, mas também porque não estava preparado para aquilo. Era uma responsabilidade que os 19 anos dele não compreendiam muito bem.

Minha mãe tinha razão em muitos dos conselhos que me deu, não segui nenhum. Mas foi bom aprender sozinha, caso contrário, não teria crescido. Hoje sigo o destino, como já dizia o Lulu Santos, que seja assim enquanto é…

MINHA VIDA

Quando eu era pequeno,
eu achava a vida chata
Como não devia ser
Os garotos da escola
Só a fim de jogar bola
E eu queria ir tocar
guitarra na TV

Ai veio à adolescência
E pintou a diferença
Foi difícil de esquecer
A garota mais bonita
Também era a mais rica
Me fazia de escravo
do seu bel prazer

Quando eu sai de casa
Minha mãe me disse:
Baby, você vai se arrepender
Pois o mundo lá fora
Num segundo te devora
Dito e feito
Mas eu não dei o braço a torcer

Hoje eu vendo sonhos
Ilusões de romance
Te toco, minha vida
Por um troco qualquer
É o que chamam de destino
E eu não vou lutar com isso
Que seja assim enquanto é

Para pensar…

...a gente só ama aquilo que conhece!!

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