O texto abaixo não é meu, mas da minha talentosíssima amiga Thaís Fernandes. Ela rebate o texto publicado no caderno Donna, de ZH, jornal onde trabalho, do imortal Moacyr Scliar, sobre os moradores de rua. Confira o duelo de palavras abaixo e tire suas próprias conclusões:
Moacyr Scliar e a indiferença dos Moradores de Rua
Não é de hoje que o jornal Zero Hora, através de seus repórteres e colunistas, emite opiniões equivocadas sobre a população de rua de Porto Alegre. Dessa vez, foi um texto de Moacyr Scliar no caderno Donna de 27/12/2009 que me chamou a atenção (Abaixo, texto na íntegra e link para site ZH). Do alto de seu discernimento engaiolado por um carro, ele fala o que julga ser a verdade sobre as ruas. O texto tem como destaque inicial a seguinte frase: “Morar na rua é opção e resulta, sobretudo, de uma vida infeliz”. Parece que dizendo isso desconhece um dado importante, divulgado pelo Ministério das Cidades (baseado em uma pesquisa da Fundação João Pinheiro), de que o déficit habitacional no país é de 8 milhões de moradias, e que um dos problemas principais disso é a baixa renda familiar. Ainda assim, ele não ignora as estatísticas.
Primeiro Scliar utiliza um número divulgado pela FASC de que, em Porto Alegre, há cerca de 1.200 moradores de rua. Ora, qualquer observador mais atento (até mesmo de dentro do seu confortável carro), sabe que esse número é uma estimativa muito distante da realidade. Uma conversa com qualquer servidor da FASC, responsável por essas pesquisas (como a que fiz em 2007 enquanto escrevia uma reportagem sobre o tema), esclareceria que a população de rua é algo muito mais complexo do que simples números. Segundo, utiliza a chancela do livre arbítrio para afirmar que quem mora na rua o faz por opção, como resultado de uma vida infeliz. Infelicidade que, aliás, ele não define. O discurso de que alguém mora na rua por opção faz parte do mesmo pacote opinativo dos que dizem que desempregado é vagabundo, já que trabalho não falta.
Scliar vai além. Diz que existe uma condição básica para quem vive embaixo de viadutos (sim, já que a impressão que o colunista de ZH passa é de que moradores de rua só vivem nos viadutos, como na música francesa que inicia o texto). Para ele, é necessário ser indiferente. Sim! Moradores de rua precisam ser indiferentes, já que “para essas pessoas, aquilo que incomoda a classe média em absoluto não conta”. E daí ele segue, falando da falta de privacidade e excesso de barulhos, fatores que seriam enormes empecilhos para a vida que nós, classe média, levamos. Mas não eles, moradores de rua, já que têm essa magnífica qualidade, a indiferença, e outra ainda melhor, o livre arbítrio, pois puderam escolher morar na rua. Indispensável falar da necessária e relevante observação sobre o que, além da indiferença, ajuda os moradores de rua a dormir. Para ele “a cachaça atua como um sonífero poderoso”. Dizendo isso, parece que fez uma pesquisa pessoal e descobriu que absolutamente todos os moradores de rua bebem cachaça. Interessante.
Nós, pobre classe média, não somos tão evoluídos ao ponto de abrir mão da nossa confortável vida e escolher morar na rua. Mesmo tendo, muitas vezes, vidas infelizes, famílias destruídas, problemas de auto-estima, o que fazemos, nós os egoístas, é ir sofrer em Paris. É de lá que trazemos nosso aguçado olhar para, sem ser indiferente, perceber o que se passa embaixo dos viadutos. O mais interessante é que Moacyr Scliar consegue perceber todas essas coisas de dentro de seu carro! Não precisou sequer conversar com um morador de rua.
Se tivesse saído do carro, ele poderia ter conhecido a Dona Maria, uma senhora de seus 70 anos que vende panos de prato na Avenida Protásio Alves e não mora embaixo de um viaduto. Ela dorme na rua há alguns meses, pois o casebre onde morava, na periferia de Viamão, foi destruído pela chuva. Construído em área irregular, a prefeitura da cidade não deixou que ela o reerguesse. Solução: Dona Maria “escolheu” morar na rua. Será que classifico isso como infelicidade?
Mas e por que ela não vai para um albergue? Albergues são locais para dormir, e não morar (em Porto Alegre há apenas um que funciona durante o dia, a Casa de Convivência, e tem 70 vagas diárias). Aceitam um número limite de pessoas, que começam a fazer fila nos seus portões muito antes das 18h. Porto Alegre não tem leitos suficientes para o número real de moradores de rua da cidade. Muitos antes do sol raiar é preciso sair. E ainda, para completar a lista de facilidades, não se pode freqüentar o mesmo estabelecimento por muito tempo, variando de 15 a 30 dias o tempo de permanência. Foi por isso que, voluntariamente, Dona Maria “escolheu” morar na rua, embaixo das marquises, e não dos viadutos.
Afinal, quem é indiferente à realidade? Moradores de rua e sua escolha “voluntária” de existir bravamente onde lhes é possível, ou os observadores da classe média?
Thais Fernandes – Jornalista
http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/donna/19,136,2757671,Moacyr-Scliar-A-vida-sob-os-viadutos.html
Variedades | 27/12/2009 17h10min
Moacyr Scliar: A vida sob os viadutos
No Colégio Júlio de Castilhos aprendi uma canção francesa chamada Sob as Pontes de Paris (Sous les Ponts de Paris). Dizia mais ou menos o seguinte: “Sob as pontes de Paris/ quando desce a noite/ toda a sorte de vagabundos se infiltra sorrateiramente/ e ficam felizes de encontrar onde dormir”.
Porto Alegre não tem o Sena, nem as pontes de Paris. Mas Porto Alegre tem o Arroio Dilúvio, com suas pontes e, sobretudo, Porto Alegre tem os viadutos. E ali, como na capital francesa, muita gente procura abrigo. No ano passado, um levantamento da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), órgão da Prefeitura, falava em 1200 moradores de rua. Numa cidade com mais de um milhão de habitantes não chega a ser um número muito grande. Mesmo muito pobres as pessoas acabam achando uma casa; nem que seja um barraco na periferia. Morar na rua é opção, e resulta, sobretudo, de uma vida infeliz. Quase a metade dessas pessoas tem problemas familiares; 70% vivem sós, uma situação para a qual colaboram o alcoolismo e as drogas.
Ou seja: não é só uma questão social, é mais complicado que isso.
Qual é a condição básica para viver, ou sobreviver, em baixo do viaduto? Eu diria que é a indiferença. Para essas pessoas, aquilo que incomoda a classe média em absoluto não conta. A falta de privacidade, por exemplo. Tudo que os moradores de rua fazem é público, tudo. Eles estão ali, comendo, ou bebendo, ou dormindo, ou fazendo as necessidades, absolutamente indiferentes ao olhar dos outros. Há quem não consiga conciliar o sono com barulho; não é o caso deles. Por sobre suas cabeças, no viaduto, ruge o tráfego urbano, intensíssimo num país em que o carro se tornou um indicador maior de progresso e de afluências. Isso não impede que durmam (é claro que a cachaça atua como um sonífero poderoso).
Também a noção de propriedade para eles é diferente. Sim, têm as suas coisas, que em geral cabem num carrinho de supermercado – em todas as partes do mundo os gerentes desses estabelecimentos já devem ter aceito com resignação o fato de que tais carrinhos serão sumariamente confiscados. Mas, por outro lado, muitas vezes deixam essas poucas coisas abandonadas. Na manhã do domingo passado passei sob o viaduto da Silva Só, onde vivem muitos habitantes de rua. Detive-me a contemplar um colchão. Era um colchão de espuma, velhíssimo, esburacado. Sobre ele, um cobertor, igualmente velho, esburacado. Mas, e esse foi o detalhe que me impressionou, e comoveu, o cobertor estava cuidadosamente dobrado, caprichosamente dobrado. Pensei então no homem ou na mulher que o havia dobrado.
Ao fazê-lo, talvez num ato automático e reminiscente de uma infância quem sabe vivida de uma maneira melhor, essa pessoa colocara um pouco de ordem em sua vida. Uma partícula de ordem, por assim dizer, mas que deve ter contribuído para restaurar algo da dignidade que existe em qualquer ser humano, por mais precária que seja sua existência. Ao ver o cobertor dobrado, a pessoa deve ter ficado satisfeita consigo mesma: eu não sou um traste completo, eu sou alguém, ainda existe esperança para mim.
Ou seja: sob os viadutos de Porto Alegre, como sob as pontes de Paris, a vida resiste.
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