Tem vezes que eu ainda acredito em Papai Noel!

Minha infância sempre foi rodeada de bichos. Gatos e cachorros, principalmente. Todos vira-latas. O primeiro deles foi o Piter. Ficou anos com a gente. A última vez que o vi foi quando estava indo viajar e ele andava pela rua para o lado contrario da nossa casa. Estava indo embora para morrer, disse o meu pai.

- Os cachorros fazem isso, enfatizou ele.

Tivemos também o Duque e o Tobe, filhos da mesma cadelinha. E também tinha o Teddy, um cachorro grande e branco, nem parecia que não era de raça. Só que nem por isso ele escapou de pegar sarna. O pior foi que ele passou pra minha mãe. Ela ficou mais de uma semana sem trabalhar até se curar. Só que o Teddy não se curou. O pêlo caiu. Mas criança, sabe como é, não consegue ver isso. Eu continua vendo ele branco e peludo como sempre.

Uma das lembranças mais tristes da minha infância foi quando meu pai colocou o Teddy pra dentro do porta-mala do carro e saiu. Eu me impolguei e inventei de ir junto. Achei que a gente ia passear. Seguimos em direção a uma estrada de chão batido. Lá meu pai parou e desceu. Abriu o porta-mala e soltou o Teddy. Meu pai correu pra dentro do carro e arrancou sem olhar pra trás. Mas eu olhei. Nunca consegui esquecer a cena do cachorro correndo que nem louco atrás do carro. Parecia que quanto mais o pai acelerava, mas ele se esguelava para tentar nos alcançar. Até que certa hora ele sumiu na poeira. E eu nunca mais vo vi.

Muitos cachorros vieram depois do Teddy, mas não me apeguei a mais nenhum. Sabia que eles iam embora antes de mim. Por isso nem assisti a Marley e Eu, pois sabia que ia me derreter de tanto chorar.

Na casa da minha mãe continua a ter muitos cachorros e gatos. Meus preferidos são o Bolota, o cahorro mais velho, e a Sassá, uma gata peluda que dorme com o meu pai. Ah, e tem a Fofa também, uma cadela enorme que pula em ti e te derruba. Eu adorava brincar com ela e fingir para os outros que passavam na rua que ela tava me atacando, pois ela ficava em cima de mim e me dava mordidas de mentira.

Não demorou até minha mãe descobrir a farsa…e me dar uma surra que doeu de verdade.

Calvin, né? Sempre ele! 

Desculpem a ausência nessas últimas semanas, mas é que o amor e a felicidade andam me visitando todos os dias. Assim fica difícil não dar atenção a eles! 

Sabe quando tudo dá certo? Quando a cabeça deixa a preocupação de lado e começa a pensar em pequenas bobagens e sonhos de consumo? Estou assim, embriagada de um “rumo certo”. Claro, isso tudo faz parte de um plano que coloquem em prática ao retirar certas coisas (e pessoas) da minha vida e dando lugar ao que me faz bem, e não simplesmnte ao que o meu desejo me levava a querer ou fazer. 

Óbvio que 50% disso, é o fato de eu estar de férias. Trocar a rotina, respirar novos ares e ver que o mundo é muito maior do que uma redação é incrível. Ando simplesmente contemplando. Contemplando o céu, a chuva que vem insistindo em cair nos últimos dias, mas que tem me feito ver o quanto é bom estar dentro de casa, deitada na cama e assistir TV. Ou sair por aí, somente para visitar aqueles que eu não via há muito tempo, mas que o tempo não me fez esquecer. 

Melhor foi ir na academia bem cedo e ver as pessoas saindo correndo pra trabalhar. Ri sozinha! Ou acordar e perceber que eu podia virar para o lado e voltar a dormir. Sem falar em andar pela cidade de tarde, no ritmo que a vida deve ser, em câmera lenta, e ver as pessoas em passos rápidos para chegar em algum lugar!

Enfim, estou no pit stop. Dando uma parada e saboreando o que a vida tem me oferecido. Daqui a pouco eu volto aqui para parodiar os meus dias que voltarão a ser o que denomina esse blog: DE LÁ PRA CÁ! 

Saudações!

:-)

Não, não tomei água do vaso sanitário. Em sã afinidade com a mais clara da minha lucidez afirmo e reafirmo: todos somos fiéis. Todos. Homens e mulheres, lésbicas e travestis, carecas e cabeludos, personal trainers e hipocondríacos, gremistas e colorados. O termo fidelidade – provavelmente ninguém sabe o que esta palavra significa – em sua acepção sagrada, foi definida como a qualidade de conformidade do fiel em relação com o prescrito. Gravem o “prescrito”.

Portanto, todos somos fiéis. Sem dúvidas, se seguirmos o prescrito. Quer mais provas? Filhos, netos e sobrinhos herdam um amor viciante e altamente incondicional ao clube futebolístico do coração de pais, avós ou tios. Com raras exceções, são fiéis até a morte, com o time perdendo, ganhando ou levando 8 a 0 do Avaí. O histórico do clube é volátil, hora está por cima, hora por baixo, mas no início do relacionamento estava prescrito (olha ele aí outra vez) que as cores seriam azul, preto e branco e a maior meta é ser campeão do mundo. O amor é analógico ao prescrito.

E se de uma hora para a outra, o time optasse por entrar em campo com uma camisa listrada em magenta, mostarda e azul petróleo? E se na virada da noite seu objetivo não seja mais se tornar o melhor selecionado de futebol da Terra, mas do torneio citadino de críquete sobre patins? Há fidelidade que resista? Assim ocorre com os relacionamentos. No momento em que se sela o acordo mútuo de paixão e compromisso, fica prescrito que o seu novo amor é uma garota tão divertida quanto um amigo homem e mais compreensiva que o seu cachorro labrador e despreocupadamente ninfomaníaca. Assim como todo rapaz é um belíssimo príncipe, que abre a porta do carro, deixa a dama passar na frente sempre. Até o Vadinho da Dona Flor perpetuaria juras de lealdade.

A convivência conjugal é a irmã da prescrição. E de vez em quando ambas se agarram pelos cabelos e rolam no carpete. Tudo que foi acertado explicitamente enquanto o casal amava uivando, desapareceu como canetas Bic em situação de emergência. A ninfomania sucumbiu à cólicas repentinas e à uma preguiça de dar inveja ao anão Soneca. E aquele amigo com peitos e cheiro de xampú de jojoba que era parceiro pra qualquer programa? Mexe-se menos que um ermitão. Compreensão? Neca de Pitibiriba. Cerveja depois do futebol soa como propôr enterrar a sogra num terreno baldio.

E quando aquele cavalheiro se nega a ssistir a novela para ver o futebol e não quer te levar nem até a esquina? Aquele companheiro cheio de amor pra dar que topava ver a lua e se molhar na chuva? Se tornou mais ranzinza que o Zangado dos sete anões e mais parado que poste.

E tudo que estava prescrito e com firma reconhecida em cartório azedou e a base da estabilidade relacional teve seu sistema imunológico desfalcado. E é aí que começa a atacar a cólera do amor, sabidamente chamada de infidelidade.

Desde que a minha pressão andou dando seus pulinhos para 14 por dez, meu médico cortou algumas delícias que eu, francamente, não sei viver.

- Michele, vai ter que cortar o ovo.

- O ovo, Dr?

- Sim.

- O frito?

- Todos

- O cozido e o mexido também?

- Todos.

- Mas nem o estrelado só com margarina light?

- Já disse, todos!

- Não dá pra cortar a carne e deixar o ovo?

- Tu precisa de carne e não precisa de ovo.

- Meu coração diz o contrário.

- Teu coração não sabe o que diz. Ele precisa se fortalecer, e o ovo pode prejudicá-lo com o colesterol.

- Mas Doutor…

- Nada de mais. Sem ovo por algumas semanas.

- Quantas semanas?

- Um mês.

- Um mêêêêsssssssssss??????

- Sim. E depois apenas um por SEMANA!

Nessa hora, ele já nem me olhava mais e começava a anotar a nova dieta.

- Dr?

- Fala Michele.

- Eu não sei viver sem comer ovo.

- Eu sei Michele.

- E por que tu faz isso comigo?

- Eu não faço nada. Apenas falo o que é pro teu bem.

Ele continuou fazendo anotações.

- Não tem como compensar? Tipo, trocar uma coisa por outra e me deixar com direito a um ovo por dia?

- Michele, se tu pudesse ter sempre o que quisesse, compensando sempre uma coisa por outra, nunca vai conhecer o que tem de novo, bom e melhor por aí. Te aconselho a pensar no ovo como o cara que te traiu.

- O ovo me traiu doutor?

- Sim. Tu comia ele todos os dias e ele tá te fazendo mal. E tenho certeza que tu nem sabia disso!!!

A partir dali, o ovo morreu pra mim.

Ontem, conheci uma tal de granola. Estamos nos dando bem. Vamos ver se essa aí não vai fazer que nem o ovo e me apunhalar pelas costas também!

Até a próxima consulta!

O coração sente falta, a cabeça não me obedece e fica trazendo na mente quem já foi embora sem dizer adeus…

Dias atrás um amigo me confiou uma resolução que fizera no último Reveillón: transar com tantas mulheres quanto seus amigos. Uma meta estúpida, mas alcançável. Sorte dele que entre estes amigos não está o Thiago. Nenhum humano arrisca tentar pegar o mesmo número de garotas que o Thiago (Chuck Norris, talvez). Igualar os feitos do Thiago é uma tarefa inglória, tão improvável quanto encontrar Osama Bin Laden na geral do Grêmio. Aliás, o Thiago pegou todas na geral do Grêmio.

Usando as gírias da moçada, o Thiago é o legítimo “limpa-trilho”, “passador de rodo”, “pegador”. Pega todas, qualquer uma, quase sem critério. Ele é daqueles que pára sua moto na saída da escola e fica esperando as meninas novinhas chegarem aos 17. Thiago só pega depois dos dezessete anos. O garanhão chama o ritual de “observar as categorias de base”. E tem o faro tão aguçado quanto o olheiro que descobriu o Ronaldinho Gaúcho. Essa vai ser gostosa, diagnostica o Thiago.

Mulheres brotam na horta do Thiago como chuchu dá em cerca de arame farpado. O cara é o único que pode rejeitar uma noite de sexo selvagem regada à cinta-liga vermelha. E nega com prazer, meio debochando: – não, obrigado, fica pra outro dia. Dá raiva. Óbvio que o Thiago não é feio, ou um cara qualquer, porque um cara qualquer nunca chegará aos pés do Thiago, tampouco à sua lista telefônica.

Certa vez, um outro amigo meu encontrou o Thiago no elevador – eles eram vizinhos de prédio. O Thiago o encarou no fundo dos olhos como se fosse Mike Tyson e disse firme: – Só tem uma mulher que eu não comi nesse condomínio. Meu pobre amigo se senti desafiado e, ao chegar em casa contou o causo à sua “namorida”. Sabe o que ela respondeu? “Só pode ser aquela feiosa do térreo”. Sim, o Thiago também tinha comido a mulher dele. E pelo entusiasmo dela, ele não só passou o rodo como o aspirador de pó e o lustra móveis. O que fazer? É o Thiago…

Não, eu não fui uma vítima do Thiago. Não porque ele não tentou, ou porque eu não quis. Meu marido sabe disso. Mas só de pensar que posso me tornar mais um número na lista dele, me faz brochar na hora.

O fato é que se você já tem 17 aninhos, senta para mijar, mas não é nenhuma espécie de anfíbio, e ainda não conhece o Thiago, vai conhecer. Se vai!

Na volta da minha viagem a São Gabriel, fiquei pensando nos tempos de infância, os churrascos, os banhos de rio, os apertões nas bochechas, as histórias dos tios, as comidas das tias, e como o tempo e os avanços tecnológicos distanciaram tudo isso. Na era da internet e telefonia móvel, o contato com os parentes é constante, o que não motiva muito uma viagem longa para passar alguns dias.

Esses dias um amigo me falou: tenho saudade das reuniões em família. Eu expliquei pra ele, que hoje, a vida nos proporciona facilidades que nos deixam cada vez mais individualistas. Ficar na frente do computador, por exemplo. Durante esses dias que fiquei fora, estava hospedada na casa de uma outra tia. Os meus primos mais novos eu mal vi. Ficavam toda a hora no msn. Se eu tivesse me conectado, talvez teria mais chances de conversar com eles.

Voltando para Porto Alegre, passei pela mesma experiência saindo com as minhas amigas. Fomos jogar boliche. Uma maravilha, para o TWITTER! Sério, adoro a cada uma. Mas a cada jogada de bola em direção aos pinos, era um clique e uma twitada. Segue um dos momentos abaixo:

boliche

Há quem não desgrude do celular e não vive sem checar ou postar os principais acontecimentos do dia na internet. Ficar fora do área de cobertura é um pesadelo que deve ser evitado. Pode até esquecer as chaves de casa, mas o celular NUNCA!

Muitos dizem ser esse o mal do homem contemporâneo: a ânsia de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, a necessidade de estar sob o alcance de tudo e todos. E a tecnologia está aí para isso: serve como âncora desses nossos desejos, das nossas novas necessidades. Para as pessoas do século XXI, o tal do “porto seguro” se resume em duas palavras: estar conectado. Se “estou feliz no twitter ou orkut”, então “estou feliz”.

O momento era de confraternização, mas a maioria não conseguiu deixar o celular de lado, muito menos de postar os momentos ali vívidos. Desde o assalto que sofri, optei por não ter celular. Vivo conectada na maioria das vezes. Quem precisa falar comigo liga para o trabalho ou para casa. Se não estou em nenhum dos dois, é porque não quero ser encontrada. Ainda tenho meus momentos de abstinência, mas são rapidamente superados por uma caminhada na rua ou um abraço que alguém que tanto amo!

boliche1

A pedidos, os crédito das fotos: Claudia Ioschpe :-)

A morte é tão certa quanto a velhice. A diferença entre elas, é que a primeira pode vir antes e não dar chance da segunda acontecer. Minha família por parte de pai era enorme. Ele é o caçula de sete irmãos. Enterrou quase todos. Essa semana, ele teve que dizer adeus ao meu tio Claudino, na terra dos coronéis e da melhor linguiça: São Gabriel.

Segurando-o um em cada braço, o levamos para perto do caixão.

— Como ele tá magro — disse.

Meu tio estava com câncer de estômago, o que o impediu de se alimentar nos últimos dias. Apesar das circunstância difíceis dos últimos tempos, tio Claudino não tinha do que reclamar. Era pai de dois homens e quatro mulheres. Muitos netos e, até, bisnetos. Tinha 82 anos, a maioria deles com saúde e mais de 50 deles casado com a minha tia, que morreu um pouco junto com ele naquele dia. Usando pantufas, ela foi conduzida devagarinho até o túmulo dele. Era o único choro que se ouvia naquele trajeto. Um choro contido, de quem já não tinha mais forças.

A Tânia, uma das minhas primas, não dormiu um único dia enquanto ele esteve no hospital. Ia para casa apenas para tomar banho. Segurando forte a minha mão, desabafou:

— A gente só tem noção da dor quando acontece com a gente.

Ela morou toda a vida com ele. Casou e se mudou para a casa da frente. Não imaginava a vida sem o pai por perto. Apesar do empenho, não foi nos braços dela que ele deu o último suspiro, mas sim da Clara, irmã dela, que mora em Porto Alegre e viajou às pressas para se despedir. Na verdade, acho que ele apenas estava esperando por isso para partir.

No cemitério, revi pelas fotos dos túmulos os rostos que conheci quando era criança, mas que hoje o semblante já não me era claro na memória. Chorei ao ver a minha avó, os tios, e até pelas pessoas que não conhecia, pois achei deprimente que pessoas que foram tão especiais e viveram tão intensamente terminar atrás de um pequeno muro de concreto com uma lápide escrita apenas o nome e a data de suas primaveras.

A situação não era a melhor, mas foi bom rever a família que mora longe. Mesmo sabendo que, com a morte do último irmão do meu pai, talvez eu não volte pra lá.

***

Ao voltar, liguei para uma amiga, já que tínhamos combinado de sair. A voz baixa e chorosa me deixou desconfiada. Perguntei se estava tudo bem e soube que não foi só o meu tio que havia dado adeus a este mundo. Mariana Regal, publicitária de 24 anos, que se formou no mesmo ano que eu, teve um aneurisma e não resistiu. Não é fácil entender porque uma menina tão nova, cheia de sonhos pela frente partiu assim.

Segundo minha amiga, a cena mais dolorosa não foi ver o corpo dela no caixão, mas sim se deparar com os pais dela tendo que passar por isso. Não é a ordem natural das coisas. Nós é que devemos enterrar nossos pais, e não eles verem morrer a quem deram a vida!

Os caminhos de Deus são misteriosos, não dá para entender as coisas no momento em que elas acontecem. Um dia uma amiga teve que viajar pra longe e sabia que os pais dela estavam tristes com isso. Como queria ajudar, perguntei se eles precisavam de alguma coisa, minha amiga respondeu:

— Eles precisam de uma filha, Mi. Quer ficar no meu lugar?

Putz. Aquilo me partiu o coração. Minha amiga sabia que ninguém poderia dar o que eles queriam. Bastava que eles aceitassem o fato. Mas lembrei da resposta dela ao saber do caso da Mari. O que os pais dela queriam era ter a filha de volta, o que já não vai ser possível. O que resta é desejar-lhes força para que com o tempo a dor da perda seja amenizada e eles saibam viver apenas com as lembranças e a saudade.

Para pensar…

...a gente só ama aquilo que conhece!!

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