Me leva contigo. O lugar não importa. Só me leva contigo.

Vai sair? Me leva!

Vai ver TV? Me leva!

Vai comer? Me leva!

Vai dormir? Me leva!

Vai viajar? Me leva, mas pra onde vamos?

Rio de Janeiro? Me leva!

Paris? Me leva!

Cachoeirinha? Me leva!

Gravataí? Me leva!

Quintos dos infernos? Hum, deixa eu ver, tá, topo, se for contigo, tá valendo!

Tudo é melhor do que acordar sozinha no meu quarto e ter a sensação de que tu saiu e não me levou junto, por mais que tu não tenha passado a noite ali!

Queria tanto que minha mãe estivesse aqui. Ela não mora tão longe, mas a distância é o suficiente para que eu não a veja todos os dias. Somente ela sabe a pessoa que há dentro de mim. Uma pessoa que pode fazer besteira, errar, mas que acima disso quis acertar, fazer o melhor. Mas nem sempre dá certo!

A vida de adulta tem sido difícil. Contas para pagar. Salário nem tão alto para receber. Uma saúde (e essa tem me deixado na mão) para cuidar. Consertos em casa para resolver. Projetos para tocar. Trabalhos da pós-graduação para fazer. Catequese para dar. Enfim, ter que ser gente grande quando na verdade o que eu queria era brincar. Sair na rua e me esconder até alguém me achar. Correr até alguém me pegar. Jogar taco até perder a bola e, se não achar mais a bola, ficar riscando coisas no chão até anoitecer.

Mas nada disso agora pode acontecer. Tenho responsabilidades. Não que seja ruim, mas nem sempre é bom também. Não sei se é por causa dos 39 graus de febre ou por causa do pessoal do trabalho que não para de me ligar mesmo eu estando de ferias, mas o colo da minha mãe seria o céu pra mim agora. Ali tenho a sensação de que eu nunca cometi erros. De que tenho o direito de chorar como criança, pois sei que para ela eu nunca deixei de ser isso, uma criança.

Posso estar agindo como criança agora, mesmo com trinta e poucos anos, mas é assim que me sinto. Desprotegida. Frágil. Como se o mundo lá fora fosse me devorar. No entanto, como sou adulta, e não posso me esconder na barra da saia da Dona Fátima, tenho que sair e enfrentar. Deus me ajude, amém!

“Meu anjo da guarda, meu bom amiguinho! Me leve sempre para um bom caminho”! 

OBS: A oração acima foi ensinada pela professora Margareth, da primeira série! Não custa nada rezá-la de vez em quando.

Não sei o que me chamou a atenção nele. Se foram os olhos fechados, parecido com um japonês, ou se foi a boca meia aberta vindo me beijar. A ousadia eu sei que eu gostei de cara. Adoro um jeito mais atrevido, sem papas na língua, no beijo, nas mãos.

Um homem responsável, de bom coração. Um menino meio bobo, que adora tirar sarro da cara dos outros. Isso é o que ele é. Um conflito entre duas almas que brigam entre si. As vezes uma ganha e se apodera da outra.  Quando nos encontramos, basta um olhar para perceber qual das duas está no comando.

Aos poucos descobri que ele tem muito mais do que 1,84 metros de altura que ele diz ter. Ele não é simplesmente um homem alto, é um gigante. Ele me leva tão alto que consigo caminhar entre as nuvens. Passear entre as estrelas. Dizer oi para Deus e cair novamente nos braços dele.

Levou um certo tempo até que nossos corpos conseguissem se encaixar durante a noite, sem que nenhum membro ficasse preso ou apertado. Hoje nos encaixamos bem. Mas de hora em hora é preciso desencaixar para que as peças de cada um nós queiram se juntar de novo.

Não sei se foi a sinceridade dele que me despertou mais a atenção, mas descobri com ele que falar sempre a verdade exige um certo dom. Um jeito que não magoe. Que não se interprete mal. Que faça da verdade o que realmente ela é: uma opção melhor que a mentira, e não uma provocação para deixar alguém triste.

Percebi que estava de quatro por ele quando um dia ele não apareceu e eu fiquei sem saber o que fazer.  Quando ele saiu e eu achei que ele não ia mais voltar. Naquele dia eu não respirei. Estava quase morrendo, quando às sete da manhã ele ligou para dizer que estava tudo bem, e que já estava em casa. A partir dali, ligo todos os dias. O quero todos os dias. Sonho com a boca dele fazendo biquinho todos os dias. Delirar nos braços dele todos os dias. Ser chamada de Miche todos os dias. Ouvir “linda” todos os dias, mesmo nos dias em que não o vejo e que o telefone ou o msn sejam os nossos salvadores.

Mesmo com tudo isso, ainda não sei o que me atrai nele. O que sei é que se passaram 365 dias ao lado dele e tudo o que quero é que muitos outros venham.

Seria crucificado de novo. Triste, assim como no passado, mas é a verdade.

E não digo isso porque hoje em dia continuamos a ter os mesmos corruptos e ladrões do passado. Não. Tenho comigo que pessoas com quem eu convivo, amigos e familiares que eu amo e estimo muito, poderiam se revoltar contra aquele que viria novamente pregar que é preciso uma mudança de comportamento dos seres humanos para que a paz e o amor se estabeleçam. E afirmo isso com base em fatos.

Estou lendo o Evangelho de Mateus, o ex-cobrador de imposto que se converteu e virou seguidor de Jesus. Nele, há aquela passagem do encontro dos três reis Magos com Herodes, o rei da Judéia. Nesta época, a vinda do messias era esperada, pois profetas do Antigo Testamento já haviam anunciado isso. A crença de que tudo poderia ficar melhor com a vinda daquele que seria o “Rei dos Judeus”, era um fator de motivação para o povo. No entanto, a reação de Herodes ao saber do nascimento de tal “rei”, não foi de alguém que acreditasse em profecias. Sem saber onde nasceria a criança, já que os Magos foram embora sem lhes dar essa informação, mandou matar todos os meninos recém nascidos do país. Isso para que ninguém tirasse o trono que era apenas seu. Não deu certo. Mesmo assim, anos depois, nem Deus conseguiu impedir que o “Rei” fosse crucificado com aceitação de muitos.

E tudo isso aconteceu por causa de que? Dinheiro e status. Quem não tem, quer ter. E quem tem, não quer perder. E em troca de alguma dessas duas coisas, existem pessoas são capazes de fazer o que passam a vida inteira dizendo que não fariam. 

Vejam o ex-presidente Lula. Começou como um simples trabalhador que por amor ao trabalho chegou a perder um dedo. Se tornou sindicalista. Um líder entre os operários. Para ajudá-los, entrou para a política. Se candidatou. Perdeu. Se candidatou. Perdeu. Mudou. Se vestiu como a maioria das pessoas gostariam que ele se vestisse. Fez parcerias que dizia que nunca faria. Se candidatou e ganhou.

Não estou criticando o ex-presidente, mas é que a partir dessa análise vem um dos fatos ao qual me referi acima: somos aquele tipo de gente que só se importa com o dinheiro no bolso e o que os outros pensam de nós. Se estamos bem, não interessa o que esteja acontecendo ao nosso redor, por mais podre que o cheiro seja. Não interessou ao Lula limpar o congresso, mas fazer o mesmo congresso aprovar os projetos que ele precisava fazer. Os fins justificam os meios? Eis a pergunta que não quer calar.

E o Ronaldinho? Escanteado no Milan, fez com que seu irmão e empresário procurasse o Grêmio para tentar voltar ao Brasil. A novidade despertou o interesse de outros clubes. A partir daí, o “quem paga mais” passou por cima do simples desejo de um jogador de voltar pra casa e ficar mais perto da família e dos amigos. Afinal de contas, como diria o maravilhoso cronista esportivo Mário Marcos, acima dele estão o Milan e os interesses da família. Ronaldinho pagou com a liberdade o dinheiro que conquistou.

Lula e Ronaldinho devem ser pessoas boas. Só que em algum momento da vida, o dinheiro e o status falaram mais alto. Escrevo isso com a convicção de que não sou santa. Sei que devo preservar os valores que me foram passados pelos meus pais, mas isso também não é tarefa fácil. A diferença no mundo de hoje está em quem consegue e não consegue manter seus valores intactos. Por isso acredito que uma possível volta de Jesus nos dias de hoje poderia não ser bem vista. Ele mexeria com as estruturas de quem, talvez, não quer que sua base mude. Por mais fé no Cristo que alguém tenha, acho difícil hoje em dia um crente largar tudo o que tem para seguí-lo, como ele pedia para fazer antigamente.

Se Lula se rendeu ao poder, se Ronaldinho que tem rios de dinheiro não jogaria de graça (pois, nem que quisesse poderia), por que nós, como bom humanos que somos, não condenaríamos Jesus outra vez? Ou alguém aqui pode dizer em alto e bom som que não duvidaria de uma menina que engravidou virgem? Quem não duvidaria, que jogue a primeira pedra.

Se você não sabe quem é a Victoria, leia aqui. Caso já tenha descoberto por aqui a história dela, saiba que a vida escreveu novas linhas. Victoria ganhou uma festa de 15 anos. Mas o melhor presente veio depois, o encontro com o pai. Confere neste vídeo!


Para cada momento da vida há uma fase social diferente. Primeiro são as festinhas de aniversário de criança, em que as pizzas de massa gigante são obrigatórias. Depois as reuniões dançantes, em que a maioria dos meninos não tem coragem de tirar uma menina para dançar. Em seguida as festas de 15 anos, onde normalmente se dá o primeiro beijo (pelo menos na minha época era assim). Logo após, vem as formaturas de segundo grau (ensino médio para quem tem menos de 20 anos). Os anos passam e chegam as colações de grau da faculdade. Depois disso, pode sentar e esperar apenas os convites de casamento, batizado e aniversários dos filhos e tudo recomeça.

Recomeça até terminar, pois a morte também tem seu ritual. Nada mais cruel que chegar na fase de reconhecer os rostos 3X4 publicados na seção de obituário de um jornal ou reencontrar um amigo que há anos não via e receber a triste notícia: sabia que fulano morreu? Não cheguei ainda nessa etapa, mas posso sentir o quanto é ruim pela cara do meu pai cada vez que algum parente do Interior liga pra dar notícias. A última foi sobre um tio meu que terminou a vida como indigente pelas ruas de São Gabriel. Ele foi casado com a irmã do meu pai, que já faleceu há anos. Depois do telefonema, meu pai desabafou: ” A gente brincava junto quando éramos crianças”. E colocou novamente o cachimbo na boca. Pois é. Ninguém está livre de esbarrar numa situação dessa.

Em cada momento desses, em que festejamos ou simplesmente somos testemunhas de um acontecimento da vida de alguém, outros personagens compõem essa história junto. E os coadjuvantes da nossa trajetória mudam a cada novo capítulo da vida. Quase nenhum daqueles que cantaram parabéns comigo em volta do bolo quando eu tinha oito anos foi a minha festa de formatura 18 anos depois. Não porque a importância deles diminuiu, mas é que cada um tomou um rumo diferente.

A guria mais bonita da turma da minha infância engravidou cedo, virou mãe solteira e engordou uns 20 quilos. O carinha mais lindo conseguiu emprego de cobrador de ônibus, perdeu os cabelos e hoje vive como careca. Esses dias passei por aquele que era o feio e espinhento da turma. Ele continua feio e espinhento até hoje. Para ele, a vida não mudou.

De vez em quando, gosto de lembrar do passado. E quem não gosta? Há alguns meses, minha irmã organizou a festa de um ano da Antônia, minha sobrinha. Foi uma super festa…para mim, pra minha irmã, para os nossos amigos. Se a Antônia pudesse entender o que estava acontecendo, certamente acharia tudo muito estranho, pois a comemoração do primeiro ano de vida dela foi recheada de coisas do NOSSO passado. Música da Xuxa, decoração da Moranguinho (quem?), puxa-puxa. Como disse antes, tudo volta ao começo, só que um pouco diferente.

Perpetuamos a nossa espécie por meio da memória. É ela que desde criança não nos deixa (ou pelo menos tenta) cometer os mesmos erros, como colocar novamente o dedo na tomada.

Um dos maiores traumas da minha mãe é não ter tido uma festa de Primeira Comunhão. Isso mesmo, eu não escrevi festa de 15 anos, mas festa de Primeira Comunhão. A dona Fátima veio do Interior. E no Interior do Rio Grande do Sul as tradições católicas são muito preservadas. Por isso uma festinha após receber pela primeira vez o corpo de Cristo era tão esperada.

Minha mãe veio de uma família muito simples, e um pouco pobre. Mas a maior pobreza não era de dinheiro, mas de amor. As amarguras do dia-a-dia para sustentar três filhos e o alcoolismo do meu avô tornaram a minha avó uma pessoa sem esperança e cheia de raiva, sem espaço para pensar em “futilidades de criança”. Isso, junto com a falta de recursos, fez com que a minha mãe entrasse na igreja com uma roupa mais humilde do que a das outras amiguinhas. E criança, quando quer, sabe ser cruel. Primeiro vieram as comparações, depois o deboche. E aquele que era para ser o primeiro encontro de Deus com a minha mãe, foi na verdade o primeiro encontro dela com a realidade do mundo.

O fato é que isso marcou tanto ela que na minha primeira comunhão, juntamente com as minhas irmãs, foi um verdadeiro acontecimento em família. Minha tia fez os nossos vestidos. Uma mais lindo que o outro. Nossos cabelos levaram duas horas para ficarem prontos. Padrinhos e madrinhas para cada uma. Confesso que as minhas lembranças daquele dia se concentram mais no corre-corre dentro de casa do que da eucarística na igreja. Mas tudo aconteceu como minha mãe sonhava: não tinha nenhuma menina mais bonita que nós, modéstia a parte. E nesse dia tive o meu primeiro encontro com os traumas da minha mãe. O encontro com o Cristo ficou para mais tarde.

Cada celebração, uma tradição. Não há como fugir. E se as coisas ou festas, ou encontros, ou qualquer ato que dependa da presença dos outros não ocorre como foi imaginado, sempre terá um para dizer: tudo passa. Acho que, na verdade, nada passa. A frase mais precisa seria que tudo muda. Daqui alguns anos, meu pai não vai mais se surpreender com as mortes que virão. A Antônia não vai querer música da Xuxa no aniversário dela. E minha mãe vai perceber que o mais importante de ir a uma igreja não é a roupa, mas aquilo que não se pode ver com os olhos, o coração.

Sabe quando o trabalho se sobrepõe a vida? Pois é.

Tem dias que a confusão é tanta, que as palavras somem.

Victória é uma menina que aparentemente não tem nada a ver com o nome que lhe foi dado. Já no nascimento perdeu o pai, que se mandou quando soube da existência dela. Foi criada pelo padrasto, que nunca a deixou chamá-lo de pai. Família mesmo ela considera a mãe e o irmão mais novo, de seis anos, que tem nome de anjo, Miguel.

Sábado retrasado me atrasei para dar catequese (sim, eu sou catequista). Como punição pelo meu atraso, quase todos foram embora, menos ela. Estava ali, no portão, me esperando. Abri a porta da igreja, fizemos o sinal da cruz e começamos a conversar. Entre um “como foi a semana” e “quais são as novidades”, ela me contou que haviam se mudado, pois o padrasto, num ataque de fúria por causa da bebida, os expulsou.

A solução foi ir para uma casa com aluguel mais barato. Pagou-se o aluguel. Faltou para a comida, me disse ela. A cada fato que contava, meu coração apertava mais. Era uma menina dividindo seus problemas de adulta. Para ajudar, ela trabalha nos finais de semana em uma lancheria, prensando cachorro-quente. Com os R$ 40 que ganha, ela faz milagres, assim como Jesus na multiplicação dos pães, só que sem a fartura.

O namorado novo ajudou a pagar o sinal do aluguel. Ele é brigadiano e tem 22 anos, seis a mais do que ela. Quando eu tinha 13, namorei um cara de 18. Meu pai quase me matou, pois sabia muito bem como os caras dessa idade pensam. Hoje entendo o meu pai, ele só queria me preservar de avançar o sinal antes do tempo. Infelizmente a Victoria não tem pai e também nada mais para preservar. De vez em quando, o cara dorme na casa dela, mas ultimamente ele não tem aparecido. Ela liga, ele não atende.

— O pai dele tá no hospital — justificou ela.

Como era véspera do Dia dos Pais, ela me contou que o padrasto iria levar o Miguel em uma pastelaria com uma expressão de desaprovação. Logo depois entendi. Ela me disse que a única coisa que aprendeu com ele foi conhecer quase todas as delegacias de Porto Alegre. Cada briga em casa era um ingresso gratuito para ir à Polícia. Primeiro foi a Delegacia da Mulher. Depois a 15ª DP, a 11ª DP, a 19ª DP….e algumas outras, até a expulsão dela, da mãe e do irmão de casa.

Miguel nos interrompe e diz:

— Mana, eu só conheço a delegacia da esquina.

Ela responde:

— Não. Tu conhece também a da saída do bairro.

Ele faz um ar de “hã, lembrei”, e continuou brincando com os carrinhos no chão.

Hoje, cada vez que ela passa na frente de algum posto policial, uma lembrança triste passa na cabeça. Principalmente as cenas da mãe apanhando enquanto tentava fazer o companheiro  parar de beber.

Uma hora se passou e fomos embora. Estava frio. E essa sensação só aumentou com a história triste dela. Conversei, dei minha opinião, oferecei ajuda. Mas o melhor que poderia fazer ela não ficou sabendo. Rezar. Rezei aquela noite, que também não tinha sido muito feliz para mim.
Cheguei na casa dos meus pais, e fiquei feliz em ver o seu José sentado, com os cabelos e a barba brancos e por saber que nunca desistiu de mim. Pelo contrário. Apesar da má situação financeira da época, quando soube que viria a terceira filha, a minha irmã mais nova, olhou pra mim mãe com um sorriso nos lábios e  soltou:

— Benza Deus! Onde come quatro, come cinco.

E fiquei ali. Perto dos braços que infelizmente hoje não podem mais me pegar no colo, mas que me dão a mesma sensação só de estar por perto. Espero que algum dia a Victória possa construir a própria família da forma como ela sempre quis ter: pai, mãe, irmãos unidos, e fazer jus ao nome que carregará para sempre na identidade.


…que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais…

Para pensar…

...a gente só ama aquilo que conhece!!

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