A gente nunca sabe o que pode acontecer num dia comum. Já escrevi aqui que dias comuns podem se tornar inesquecivelmente perfeitos. No entanto, o dia de ontem, se tornou inesquecível, mas de uma forma desagradável.
Ano passado ganhei uma bolsa grande. Nunca usei bolsas grandes, até porque me conheço e sei que quanto maior for o espaço, maior é a bagunça. Enfim, adotei aquele presente e pus nele tudo o que eu achava que precisava…e também o que só ajudava a entortar mais a minha coluna para o lado esquerdo. Era fácil, prático. Chaves, celular (que depois que ganhei um novo comecei a carregar dois, por pura preguiça de repassar toda a minha agenda), MP3, pendrive..
Não me apego a coisas materiais. Comecei essa história pela bolsa, pois foi por causa dela que perdi algo que eu me gabava: minha sensação de segurança. Aquela que todos temos e pensamos “acontece com os outros, não comigo”.
Meu horário de trabalho sempre foi mega cedo: sete da manhã. Saia de casa acompanhada pelo seguranças noturnos do meu prédio, que iam pra casa. Mesmo assim me cuidava.
Há poucas semanas mudaram meu horário, que se tornou intermediário. De cara pensei: mais seguro. Vou sair e pelo menos ver o sol de manhã. Uma benção!
Ontem, dia cinza, me arrumei e sai rumo ao outro lado de uma das avenidas mais movimentadas de Porto Alegre. Mas não passei da ponte. Dois caras de bicicleta me abordaram e só disseram para que eu passasse a bolsa “NA BOA”!
Prontamente! Peguei a bolsa e quando fui entregar, eles já a agarraram e se viraram. Mas a maldita da bichinha se enroscou no botão do meu casaco, dando a impressão pra eles de que eu estava resistindo em entregar. Pra quê!!!
Primeiro veio o tapa na cara. Depois uma derrapada no chão…e uma sequência de chutes no estômago e na barriga que me deixou sem ar pra respirar. Mesmo com tudo isso, a imagem que não sai da minha cabeça é da arma virada pro meu rosto e as palavras do cara:
- QUER VER EU TE MATAR? QUER VER EU TE MATAR?
Bem, dali eles partiram, e levaram parte boa de mim junto.
Fiquei no chão. Tremendo. Sem ar. Com as calças “molhadas”, sim, nunca mais brincarei com a expressão “fez xixi nas calças”, pois só quem passa por essa experiência sabe que é inevitável acontecer. Tudo o que eu precisava era que alguém segurasse a minha mão.
Não sinto raiva. Não sinto tristeza. Sinto medo. Medo de passar por isso de novo. Medo de que pessoas que eu amo passem por isso. Medo de ver nos olhos daqueles rapazes a capacidade de matar por tão pouco.
Minha família já passou por uma experiência dessas. Meu pai tinha um armazém. Dois caras entraram, roubaram o que podiam, tentaram estuprar a minha irmã (que por sorte desmaiou e eles desistiram). O que eles levaram de dinheiro e coisas materiais nem conta, mas eles levaram algo também que até hoje sinto falta: O MEU PAI!
Não, ele não morreu. Só desde aquele dia , meu pai, por causa da sensação de impotência de ver o que ele construiu ir embora tão fácil e de ver a filha sendo atacada tão covardemente, sofreu um AVC e vive dependente até hoje.
Não sei como essas histórias vão terminar, mas sei como a violência já mudou minha vida. Rezarei todos os dias para esse tipo de coisa fique longe de todos. O que me deixa triste é que eu sei que só quando eu morrer é que a sensação de segurança que perdi voltará, assim como a possibilidade de correr para os braços do meu pai e ser agarrada no colo novamente.

6 comentários
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agosto 20, 2009 às 5:09 pm
Fernanda Souza
Eu já fui assaltada umas três vezes e duas eu reagi e me escapei. Mas fiquei apavorada com o que fizeram contigo! Sim, a gente sente que levaram algo dentro da gente mesmo. Espero que com o tempo tu amenize essa sensação.
agosto 20, 2009 às 6:03 pm
milene
Mi querida! To chocada com tudo isso que te aconteceu. Sei que ja passou, e que Graças a Deus tu estás te recuperando, mas precisava te dizer, de alguma forma, que te mando em texto e em pensamento o meu carinho, e torço muito para que tu consigas esquecer tudo isso, não é fácil, eu sei, mas é o que te desejo de coração! um beijo Mi
agosto 20, 2009 às 11:57 pm
Cláudia Duarte
Querida Michele!
Sofri lendo essa história!
Sei que não adianta muito, mas saiba do meu carinho e admiração por ti!
Como disse no twitter, queria te ver pra poder te dar um abraço beeem apertado cheio de carinho que é o que tenho de maior pra te oferecer!!!
Beijoooo
agosto 22, 2009 às 5:42 pm
Luana Mesa
Mi, recém hj pude ler com calma o relato do que passaste e, como todos, fiquei pasma com a notícía. O que senti foi uma sensação de dor, de raiva, de impotência. Mas em seguida fui acometida por um sentimento de que as coisas podem melhorar, só em saber que tu não te deixaste abater, que tuas forças pra tocar a vida são maiores do que qualquer um que tente te agredir. Sei que não deve ser fácil, mas com certeza tua recuperação será bem mais rápida, pois tenho certeza que não deixarás que a alegria do teu riso, ou melhor, garagalhadas, deixe de ser espalhada por onde passas e que contagia a todos nós.
Guria que Deus te dê toda a força que precisares, e sabes que podes contar comigo sempre que precisares e pra qualquer coisa mesmo.
Bjks
agosto 24, 2009 às 4:46 pm
Vero
Queridona,
Fiquei sabendo ontem o que tinha acontecido… Fiquei muito muito muuuito triste, Michele. Os meus pensamentos positivos estão todos para ti nesse momento, querida. Na expectativa de ser mais uma a poder te confortar nesse momento.
Tu sabe que qualquer coisa que tu precisares, tu tens aqui mais do que uma colega. Uma pessoa que te admira muito não só pela profissional excelente que tu és, mas principalmente pela pessoa meiga e iluminada, que tem um brilho natural e uma imensa capacidade de envolver as pessoas com o teu jeito de agir e falar.
Fica bem. Um grande abraço, bem apertado, do fundo do coração.
Vero.
agosto 26, 2009 às 2:37 am
Gisa
a gente SEMPRE vai estar por perto, porque te amamos, amiga!
beijo enorme
e continua a torcida para que tudo isso se amenize dentro das tuas memórias!!