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O coração sente falta, a cabeça não me obedece e fica trazendo na mente quem já foi embora sem dizer adeus…
Na volta da minha viagem a São Gabriel, fiquei pensando nos tempos de infância, os churrascos, os banhos de rio, os apertões nas bochechas, as histórias dos tios, as comidas das tias, e como o tempo e os avanços tecnológicos distanciaram tudo isso. Na era da internet e telefonia móvel, o contato com os parentes é constante, o que não motiva muito uma viagem longa para passar alguns dias.
Esses dias um amigo me falou: tenho saudade das reuniões em família. Eu expliquei pra ele, que hoje, a vida nos proporciona facilidades que nos deixam cada vez mais individualistas. Ficar na frente do computador, por exemplo. Durante esses dias que fiquei fora, estava hospedada na casa de uma outra tia. Os meus primos mais novos eu mal vi. Ficavam toda a hora no msn. Se eu tivesse me conectado, talvez teria mais chances de conversar com eles.
Voltando para Porto Alegre, passei pela mesma experiência saindo com as minhas amigas. Fomos jogar boliche. Uma maravilha, para o TWITTER! Sério, adoro a cada uma. Mas a cada jogada de bola em direção aos pinos, era um clique e uma twitada. Segue um dos momentos abaixo:

Há quem não desgrude do celular e não vive sem checar ou postar os principais acontecimentos do dia na internet. Ficar fora do área de cobertura é um pesadelo que deve ser evitado. Pode até esquecer as chaves de casa, mas o celular NUNCA!
Muitos dizem ser esse o mal do homem contemporâneo: a ânsia de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, a necessidade de estar sob o alcance de tudo e todos. E a tecnologia está aí para isso: serve como âncora desses nossos desejos, das nossas novas necessidades. Para as pessoas do século XXI, o tal do “porto seguro” se resume em duas palavras: estar conectado. Se “estou feliz no twitter ou orkut”, então “estou feliz”.
O momento era de confraternização, mas a maioria não conseguiu deixar o celular de lado, muito menos de postar os momentos ali vívidos. Desde o assalto que sofri, optei por não ter celular. Vivo conectada na maioria das vezes. Quem precisa falar comigo liga para o trabalho ou para casa. Se não estou em nenhum dos dois, é porque não quero ser encontrada. Ainda tenho meus momentos de abstinência, mas são rapidamente superados por uma caminhada na rua ou um abraço que alguém que tanto amo!

A pedidos, os crédito das fotos: Claudia Ioschpe

A morte é tão certa quanto a velhice. A diferença entre elas, é que a primeira pode vir antes e não dar chance da segunda acontecer. Minha família por parte de pai era enorme. Ele é o caçula de sete irmãos. Enterrou quase todos. Essa semana, ele teve que dizer adeus ao meu tio Claudino, na terra dos coronéis e da melhor linguiça: São Gabriel.
Segurando-o um em cada braço, o levamos para perto do caixão.
— Como ele tá magro — disse.
Meu tio estava com câncer de estômago, o que o impediu de se alimentar nos últimos dias. Apesar das circunstância difíceis dos últimos tempos, tio Claudino não tinha do que reclamar. Era pai de dois homens e quatro mulheres. Muitos netos e, até, bisnetos. Tinha 82 anos, a maioria deles com saúde e mais de 50 deles casado com a minha tia, que morreu um pouco junto com ele naquele dia. Usando pantufas, ela foi conduzida devagarinho até o túmulo dele. Era o único choro que se ouvia naquele trajeto. Um choro contido, de quem já não tinha mais forças.
A Tânia, uma das minhas primas, não dormiu um único dia enquanto ele esteve no hospital. Ia para casa apenas para tomar banho. Segurando forte a minha mão, desabafou:
— A gente só tem noção da dor quando acontece com a gente.
Ela morou toda a vida com ele. Casou e se mudou para a casa da frente. Não imaginava a vida sem o pai por perto. Apesar do empenho, não foi nos braços dela que ele deu o último suspiro, mas sim da Clara, irmã dela, que mora em Porto Alegre e viajou às pressas para se despedir. Na verdade, acho que ele apenas estava esperando por isso para partir.
No cemitério, revi pelas fotos dos túmulos os rostos que conheci quando era criança, mas que hoje o semblante já não me era claro na memória. Chorei ao ver a minha avó, os tios, e até pelas pessoas que não conhecia, pois achei deprimente que pessoas que foram tão especiais e viveram tão intensamente terminar atrás de um pequeno muro de concreto com uma lápide escrita apenas o nome e a data de suas primaveras.
A situação não era a melhor, mas foi bom rever a família que mora longe. Mesmo sabendo que, com a morte do último irmão do meu pai, talvez eu não volte pra lá.
***
Ao voltar, liguei para uma amiga, já que tínhamos combinado de sair. A voz baixa e chorosa me deixou desconfiada. Perguntei se estava tudo bem e soube que não foi só o meu tio que havia dado adeus a este mundo. Mariana Regal, publicitária de 24 anos, que se formou no mesmo ano que eu, teve um aneurisma e não resistiu. Não é fácil entender porque uma menina tão nova, cheia de sonhos pela frente partiu assim.
Segundo minha amiga, a cena mais dolorosa não foi ver o corpo dela no caixão, mas sim se deparar com os pais dela tendo que passar por isso. Não é a ordem natural das coisas. Nós é que devemos enterrar nossos pais, e não eles verem morrer a quem deram a vida!
Os caminhos de Deus são misteriosos, não dá para entender as coisas no momento em que elas acontecem. Um dia uma amiga teve que viajar pra longe e sabia que os pais dela estavam tristes com isso. Como queria ajudar, perguntei se eles precisavam de alguma coisa, minha amiga respondeu:
— Eles precisam de uma filha, Mi. Quer ficar no meu lugar?
Putz. Aquilo me partiu o coração. Minha amiga sabia que ninguém poderia dar o que eles queriam. Bastava que eles aceitassem o fato. Mas lembrei da resposta dela ao saber do caso da Mari. O que os pais dela queriam era ter a filha de volta, o que já não vai ser possível. O que resta é desejar-lhes força para que com o tempo a dor da perda seja amenizada e eles saibam viver apenas com as lembranças e a saudade.
Gugu está na Record…
Faustão está ficando magro…
Roberto Justus participa da apresentação do Teleton…
O Rio será sede das Olimpíadas de 2016 e nem consegue controlar a guerra contra o tráfico!

Churrasco com amigos tem cada uma. Principalmente em saber das histórias daqueles que a gente não vê há tempos. Essa eu ouvi de uma vizinha, amiga, ex-colega de colégio que namora há dois anos:
O cara foi com ela pro motel. Quando chegou em casa de manhã, não reparou que sua cama estava um pouco desarrumada e foi dormir. Acordou e viu no chão, ao lado da calça jeans que ele usou na noite anterior, uma calcinha.
- Oh, ela mandou sua calcinha pra mim! Que romântico! – pensou o ele.
Excitadíssimo, ele despertou o Wando que tinha em si: cheirou a calcinha, passou-a pelo seu corpo e até se masturbou (com e por ela).
Decidiu ligar pra minha amiga pra agradecer o presente:
- Adorei o que você fez?
- O que eu fiz?
- A calcinha.
- Que calcinha?
- A que você me mandou.
- Eu? Eu não tem mandei calcinha nenhuma.
Sem conseguir convencer a minha amiga de que ela havia mandado sua calcinha pra ele, ele pegou o carro e foi até a casa dela. Ao ver a tal calcinha (que não vou detalhar aqui), a coitadinha quase morreu:
- VÊ LÁ SE EU VOU USAR UMA COISA DESSAS!!! TÁ MALUCO!!!
Inconformado, ele contou o caso pra mãe (com todos os detalhes sórdidos, inclusive). Ela, as gargalhadas, esclarece a confusão: a calcinha era da tia dele que dormiu no seu quarto e deve tê-la deixado cair quando arrumava a mala. A velha, que ainda estava na casa, ficou passada. Muito constrangida, ela queria ir embora a qualquer custo.
Minha amiga heroína não terminou o namoro com ele, mas agora sofre o sério risco de ser trocada pela tia. Vai que ele se apaixona…
… é o cara que chega no churrasco com uma caixa de Brahma e passa a tarde inteira bebendo Polar.
Gritou comigo, fico surda. Sou assim. Se alguém levanta a voz para me dizer algo, ou fala grosseiramente, vai entrar por um ouvido e sair pelo outro.
- MICHELE, ISSO TÁ ERRADO.

Não ouço! E repito o erro por não ter entendido o que me disseram. Não é de propósito, juro. É que em casa, quando o pai ou a mãe gritavam eu já me desandava a chorar, pois ficava com medo. Até que eles entenderam que para me fazer aprender as coisas deveriam se abaixar, olhar nos meus olhos e falar seriamente o que era certo e errado nessa vida. Enfim, eu cresci, sai da casa dos meus pais, casei, me formei e trabalho arduamente todos os dias. Tenho uma família que não é propriamente minha: os meus colegas de trabalho. Família sim, até porque passo mais tempo com eles do que com meus pais e minhas irmãs, ou meu marido.
Como toda boa familia tem seus patriarcas, eu tenho chefes. Chefes que fazem escala, que cuidam do teu trabalho, que tem seus preferidos (minha mãe tinha como preferida a minha irmã mais nova, não adianta nem ela dizer que é mentira).
Por isso, tento fazer do meu local de trabalho um ambiente fraterno, amigável. Dou risada alta, ajudo, brinco, brigo, peço desculpas, almoço, tudo o que uma boa relação familiar pede. Mas, assim como em todos os lares, há membros que não se batem, não vão um com a cara do outro, mas nem por isso o respeito deve ser deixado de lado. E é aí que vem a grosseria.
Como ninguém nessa vida tira conclusões sem ajuda, ontem ouvi uma sabia frase:
- Ele pode até estar certo, mas se fala grosseiramente, acaba perdendo a razão.
Entendo que há pesssoas no mundo que são mais simpáticas. Umas riem mais, outras menos, umas são mais seguras, outras vivem com mania de perseguição. Mas existem as que são grosseiras até quando te dão BOM DIA!
Modo de falar? Maneira de ser? Desde que eu o conheci ele é assim? Não interessa.
Se algum hábito meu incomoda alguém, tento fazer o máximo para me adaptar. Não mudo, mas tento respeitar o desconforto do outro. Minha risada, por exemplo. Não são todos que gostam. Muitos a acham muito alta (como verdadeiramente é). Outros acham graça. Para quem se incomda, tento não oportuná-los. Já com os que aguentam os meus decibéis a mais, minha gaitada rola solta.
Mas sei que de grosseiria ninguém gosta. Muito menos eu, que não sei lidar com ela. Quando criança eu chorava, mas se eu fizer isso hoje vão achar que eu sou de vidro, só encostar que quebra, e não é verdade. Não sei ser estúpida e pagar na mesma moeda. Posso falar alto, mas não por muito tempo.
Quando me chamam para conversar e a mal educação toma conta do ambiente, já era. Como citei na frase acima, por mais que o outro esteja certo, a razão vai para o ralo com grosseiria.
Poderia dizer isso para a pessoa e pedir que ela fosse mais gentil? Impossível. Alguém que se acha o dono da verdade não aceita críticas. Ele sempre as revida. E contorna a situação para que o culpado seja tu.
A situação é dificil, mas sei que dentro de alguns dias devo ouvir novamente:
- MICHELE, ISSO TÁ ERRADO.
Hã??? O quê???? Não ouvi!!!!!!!!
Ao chegar em casa e ligar o computador, me dei por conta que só eu e mais alguém perdemos a decisão do Sub-20 de hoje.

OBS: Não me arrependo nenhum pouco!
Eu vivo no embate constante com o tempo. Eu nunca o tenho suficiente. Quando vejo, ele já se foi. Vivo pedindo sempre mais: se tenho oito horas de trabalho, faço dez. Se tenho que acordar no horário certo, sempre peço mais cinco minutinhos. Se tenho 15 dias férias, preferia ter 30. No entanto, quando ele se faz presente, não sei como lidar. Muitas vezes não sei como viver com o “tempo livre”. Ele nunca me satisfaz.

O tempo é aquela força que envelhece o corpo, nos distancia das lembranças, nos mata a cada dia, mas também nos dá experiência e nos faz ver o quão importante é saber valorizar cada instante que ele nos proporciona. Esses instantes é que fazem o coração bater e manter vivo na memória as coisas que nem o tempo é capaz de fazer esquecer.
Há coisas que nos faz sentir a ausência do tempo. Como? O amor. Os amantes sabem bem disso. Quer fazer esquecer o tempo: AME! Quer senti-lo e ver como ele custa a passar? FAÇA ALGO QUE TE DEIXE ENTEDIADO.
Existem experiências que não são do tempo. Momentos que na verdade valem muito mais pelo que marcam do que pelo período em que existiram. Exemplo disso, as brincadeiras da infância. Não tinha hora de parar e ir pra casa, era apenas brincar e brincar de novo. Se primeiro era pega-pega, depois vinha o esconde-esconde, ou pé na lata. Depois jogávamos taco, depois de “fita” (o seu Deuzinho e o Diabinho, lembram?). Fora as conversas jogadas fora e as filosofias infantis que brotavam de cada reunião da molecada.
Outro exemplo: o namoro. Não há relógio que resista ao tempo no portão enquanto a gente se despede daquele alguém, ou aquele telefonema para ver quem é o primeiro a desligar. O tempo ele só conta quando o casal está prestes a se encontrar de novo, mas ele não existe na hora de dizer tchau!
Mais um exemplo? A maternidade. Não, não sou mãe, mas basta olhar para o rosto da minha que percebo que eu não cresci pra ela. O tempo parou há uns 20 anos atrás, pois até hoje ela me chama do mesmo apelido daquele tempo, diz que preciso me alimentar bem, pois eu não engordo (mentira) e que ainda sou virgem!
E, mais um, a morte. Para ela não existe tempo, quando chega a hora, já era. Quando eu era criança, a morte tinha cara de velhice. Hoje, ela pode se parece comigo, com um primo, irmão, amigos, criança de apenas seis anos jogada pela janela, enfim. Nesse quesito, o tempo para, mas parece retroceder, pois todos as imagens antigas vem a cabeça e insistem em incomodar o coração. Não existe tempo, ele se anula, pois tudo perde o rumo quando algo assim acontece.
O tempo é sábio. Só ele faz mágoas e dores irem embora. Só ele traz um amor novo. Só ele ensina que tudo volta: aquilo que eu fui com meus pais, posso receber de volta dos meus filhos. Aquilo que dou para um amigo, posso receber em dobro depois.
Muitas vezes penso que para fazer algo é preciso ter tempo, e que “esse algo” deve ter algum sentido. Besteira. Podemos, de devemos, ser inúteis de vez em quando. Estar ao lado de alguém apenas por estar, sem precisar conversar, aconselhar, fazer comida, o que quer que seja. Ao contrário também serve: não é preciso que alguém que eu gosto esteja comigo por algum motivo, mas que apenas esteja. Não precisa fazer o que deveria ter feito antes, o que importa é estar ao meu lado.
O tempo é o sacerdote das razões humanas, das causas divinas. O que importa é o que significamos uns para os outros. Aprendi nesses últimos dias que o que temos que fazer deve ser feito hoje: recordar, viver. Fiz isso e assim venci o tempo com a liturgia que só o amor proporciona.
Palavras não são nada perto dessas imagens dele…






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