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Tem dias que a confusão é tanta, que as palavras somem.

Victória é uma menina que aparentemente não tem nada a ver com o nome que lhe foi dado. Já no nascimento perdeu o pai, que se mandou quando soube da existência dela. Foi criada pelo padrasto, que nunca a deixou chamá-lo de pai. Família mesmo ela considera a mãe e o irmão mais novo, de seis anos, que tem nome de anjo, Miguel.

Sábado retrasado me atrasei para dar catequese (sim, eu sou catequista). Como punição pelo meu atraso, quase todos foram embora, menos ela. Estava ali, no portão, me esperando. Abri a porta da igreja, fizemos o sinal da cruz e começamos a conversar. Entre um “como foi a semana” e “quais são as novidades”, ela me contou que haviam se mudado, pois o padrasto, num ataque de fúria por causa da bebida, os expulsou.

A solução foi ir para uma casa com aluguel mais barato. Pagou-se o aluguel. Faltou para a comida, me disse ela. A cada fato que contava, meu coração apertava mais. Era uma menina dividindo seus problemas de adulta. Para ajudar, ela trabalha nos finais de semana em uma lancheria, prensando cachorro-quente. Com os R$ 40 que ganha, ela faz milagres, assim como Jesus na multiplicação dos pães, só que sem a fartura.

O namorado novo ajudou a pagar o sinal do aluguel. Ele é brigadiano e tem 22 anos, seis a mais do que ela. Quando eu tinha 13, namorei um cara de 18. Meu pai quase me matou, pois sabia muito bem como os caras dessa idade pensam. Hoje entendo o meu pai, ele só queria me preservar de avançar o sinal antes do tempo. Infelizmente a Victoria não tem pai e também nada mais para preservar. De vez em quando, o cara dorme na casa dela, mas ultimamente ele não tem aparecido. Ela liga, ele não atende.

— O pai dele tá no hospital — justificou ela.

Como era véspera do Dia dos Pais, ela me contou que o padrasto iria levar o Miguel em uma pastelaria com uma expressão de desaprovação. Logo depois entendi. Ela me disse que a única coisa que aprendeu com ele foi conhecer quase todas as delegacias de Porto Alegre. Cada briga em casa era um ingresso gratuito para ir à Polícia. Primeiro foi a Delegacia da Mulher. Depois a 15ª DP, a 11ª DP, a 19ª DP….e algumas outras, até a expulsão dela, da mãe e do irmão de casa.

Miguel nos interrompe e diz:

— Mana, eu só conheço a delegacia da esquina.

Ela responde:

— Não. Tu conhece também a da saída do bairro.

Ele faz um ar de “hã, lembrei”, e continuou brincando com os carrinhos no chão.

Hoje, cada vez que ela passa na frente de algum posto policial, uma lembrança triste passa na cabeça. Principalmente as cenas da mãe apanhando enquanto tentava fazer o companheiro  parar de beber.

Uma hora se passou e fomos embora. Estava frio. E essa sensação só aumentou com a história triste dela. Conversei, dei minha opinião, oferecei ajuda. Mas o melhor que poderia fazer ela não ficou sabendo. Rezar. Rezei aquela noite, que também não tinha sido muito feliz para mim.
Cheguei na casa dos meus pais, e fiquei feliz em ver o seu José sentado, com os cabelos e a barba brancos e por saber que nunca desistiu de mim. Pelo contrário. Apesar da má situação financeira da época, quando soube que viria a terceira filha, a minha irmã mais nova, olhou pra mim mãe com um sorriso nos lábios e  soltou:

— Benza Deus! Onde come quatro, come cinco.

E fiquei ali. Perto dos braços que infelizmente hoje não podem mais me pegar no colo, mas que me dão a mesma sensação só de estar por perto. Espero que algum dia a Victória possa construir a própria família da forma como ela sempre quis ter: pai, mãe, irmãos unidos, e fazer jus ao nome que carregará para sempre na identidade.


…que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais…

Quando chego em casa, minha sala me recepciona com um silêncio. Eu respondo a altura e suspiro só no quarto.

Essa noite me doeu o coração.
Uma dor forte, daquelas que dá vontade de abrir o peito com um bisturi e tirá-la dali com a mão.
Como sou católica, e não cardiologista, rezei.
Como Deus não me respondeu, foi em busca de Drummond, que me disse:
“Se você sabe explicar o que sente, não ama, pois o amor foge de todas as explicações possíveis…
Boa noite!

Para pensar…

...a gente só ama aquilo que conhece!!

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