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Para cada momento da vida há uma fase social diferente. Primeiro são as festinhas de aniversário de criança, em que as pizzas de massa gigante são obrigatórias. Depois as reuniões dançantes, em que a maioria dos meninos não tem coragem de tirar uma menina para dançar. Em seguida as festas de 15 anos, onde normalmente se dá o primeiro beijo (pelo menos na minha época era assim). Logo após, vem as formaturas de segundo grau (ensino médio para quem tem menos de 20 anos). Os anos passam e chegam as colações de grau da faculdade. Depois disso, pode sentar e esperar apenas os convites de casamento, batizado e aniversários dos filhos e tudo recomeça.

Recomeça até terminar, pois a morte também tem seu ritual. Nada mais cruel que chegar na fase de reconhecer os rostos 3X4 publicados na seção de obituário de um jornal ou reencontrar um amigo que há anos não via e receber a triste notícia: sabia que fulano morreu? Não cheguei ainda nessa etapa, mas posso sentir o quanto é ruim pela cara do meu pai cada vez que algum parente do Interior liga pra dar notícias. A última foi sobre um tio meu que terminou a vida como indigente pelas ruas de São Gabriel. Ele foi casado com a irmã do meu pai, que já faleceu há anos. Depois do telefonema, meu pai desabafou: ” A gente brincava junto quando éramos crianças”. E colocou novamente o cachimbo na boca. Pois é. Ninguém está livre de esbarrar numa situação dessa.

Em cada momento desses, em que festejamos ou simplesmente somos testemunhas de um acontecimento da vida de alguém, outros personagens compõem essa história junto. E os coadjuvantes da nossa trajetória mudam a cada novo capítulo da vida. Quase nenhum daqueles que cantaram parabéns comigo em volta do bolo quando eu tinha oito anos foi a minha festa de formatura 18 anos depois. Não porque a importância deles diminuiu, mas é que cada um tomou um rumo diferente.

A guria mais bonita da turma da minha infância engravidou cedo, virou mãe solteira e engordou uns 20 quilos. O carinha mais lindo conseguiu emprego de cobrador de ônibus, perdeu os cabelos e hoje vive como careca. Esses dias passei por aquele que era o feio e espinhento da turma. Ele continua feio e espinhento até hoje. Para ele, a vida não mudou.

De vez em quando, gosto de lembrar do passado. E quem não gosta? Há alguns meses, minha irmã organizou a festa de um ano da Antônia, minha sobrinha. Foi uma super festa…para mim, pra minha irmã, para os nossos amigos. Se a Antônia pudesse entender o que estava acontecendo, certamente acharia tudo muito estranho, pois a comemoração do primeiro ano de vida dela foi recheada de coisas do NOSSO passado. Música da Xuxa, decoração da Moranguinho (quem?), puxa-puxa. Como disse antes, tudo volta ao começo, só que um pouco diferente.

Perpetuamos a nossa espécie por meio da memória. É ela que desde criança não nos deixa (ou pelo menos tenta) cometer os mesmos erros, como colocar novamente o dedo na tomada.

Um dos maiores traumas da minha mãe é não ter tido uma festa de Primeira Comunhão. Isso mesmo, eu não escrevi festa de 15 anos, mas festa de Primeira Comunhão. A dona Fátima veio do Interior. E no Interior do Rio Grande do Sul as tradições católicas são muito preservadas. Por isso uma festinha após receber pela primeira vez o corpo de Cristo era tão esperada.

Minha mãe veio de uma família muito simples, e um pouco pobre. Mas a maior pobreza não era de dinheiro, mas de amor. As amarguras do dia-a-dia para sustentar três filhos e o alcoolismo do meu avô tornaram a minha avó uma pessoa sem esperança e cheia de raiva, sem espaço para pensar em “futilidades de criança”. Isso, junto com a falta de recursos, fez com que a minha mãe entrasse na igreja com uma roupa mais humilde do que a das outras amiguinhas. E criança, quando quer, sabe ser cruel. Primeiro vieram as comparações, depois o deboche. E aquele que era para ser o primeiro encontro de Deus com a minha mãe, foi na verdade o primeiro encontro dela com a realidade do mundo.

O fato é que isso marcou tanto ela que na minha primeira comunhão, juntamente com as minhas irmãs, foi um verdadeiro acontecimento em família. Minha tia fez os nossos vestidos. Uma mais lindo que o outro. Nossos cabelos levaram duas horas para ficarem prontos. Padrinhos e madrinhas para cada uma. Confesso que as minhas lembranças daquele dia se concentram mais no corre-corre dentro de casa do que da eucarística na igreja. Mas tudo aconteceu como minha mãe sonhava: não tinha nenhuma menina mais bonita que nós, modéstia a parte. E nesse dia tive o meu primeiro encontro com os traumas da minha mãe. O encontro com o Cristo ficou para mais tarde.

Cada celebração, uma tradição. Não há como fugir. E se as coisas ou festas, ou encontros, ou qualquer ato que dependa da presença dos outros não ocorre como foi imaginado, sempre terá um para dizer: tudo passa. Acho que, na verdade, nada passa. A frase mais precisa seria que tudo muda. Daqui alguns anos, meu pai não vai mais se surpreender com as mortes que virão. A Antônia não vai querer música da Xuxa no aniversário dela. E minha mãe vai perceber que o mais importante de ir a uma igreja não é a roupa, mas aquilo que não se pode ver com os olhos, o coração.

Sabe quando o trabalho se sobrepõe a vida? Pois é.

Para pensar…

...a gente só ama aquilo que conhece!!

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