Ontem me peguei pensando em mudanças. No passado, no presente, no futuro. Tudo misturado em uma mesma ideia, em uma mesma memória. As lembranças são maravilhosas. Como eu gostaria de poder gravá-las em um pen-drive e assisti-las quando sentisse vontade, com uma bela edição, óbvio.

O futuro parecia mais distante quando eu ia pro colégio de cabelo bem puxado pra trás, que chegava a doer a cuca, e muito arrumada, mas chegava em casa suja, porque brincava com os meninos no pátio do colégio. Sentava no chão e batia figurinhas, com as tranças balançando. As meninas brincavam de bonecas e eu aprendi a soltar pipas e andar de patinete. Às sextas-feiras, no fim da tarde, todas as crianças da rua (que não era asfaltada) se encontravam pra brincar de “pé na lata”. Era o dia dos berros das mães, dos pés sujos e de torradas bem elaboradas com bico de pão de quarto_ e ainda é.

Quebrei o tornozelo apostando corrida e depois quebrei o braço protegendo o tornozelo. Rasguei os dois joelhos andando de patins e tinham que me carregar no colo. Tentei descer a rua de skate e me ralei inteira. Dei a cortada mais maravilhosa da minha vida em um jogo de vôlei do colégio quando quando quebrei o pé esquerdo _ ele nunca mais foi o mesmo e agora sinto dor quando vai chover. Já me machuquei inteira achando que o mundo girava ao meu redor e que a artista principal era imortal. Em alguns momentos, a realidade doía bastante. Ainda acho que quando eu tiver uns 50 anos já vão ter inventado uma super fórmula e eu não vou ficar velha, algo como aquela cachoeira dos desenhos, que a gente toma banho e volta a ser jovem.

Aprendi, muito nova, a pegar ônibus sozinha porque perdi a carona; aos 11, foi quando dei meu primeiro beijo; aos 13 anos, fui na minha primeira reunião dançante; aos 14, fui em meu primeiro aniversário de 15 anos; aos 15, tive minha primeira festa surpresa; aos 17 anos, eu trabalhava seis horas e estudava de noite; aos 18, estudava tanto e estava tão cansada que dormi no ônibus e fui parar em outro bairro; aos 19, consegui meu primeiro emprego de verdade; aos 20, tinha desistido de ser jornalista e tentei engenharia da computação; aos 21 anos, papai do céu me mostrou que eu estava errada e voltei a tentar jornalismo, aos 22 anos, entrei na faculdade e me casei na igreja, aos 26 eu me formei e deixei de acreditar em contos de fadas.

Chorei muito, ainda criança, ao descobrir que o Papai Noel era meu tio disfarçado e os presentes eram meu pai quem comprava, mas e os sininhos que eu ouvia na varanda? Até hoje não sei de onde vinham.

Em Coelhinho da Páscoa eu não acreditava, nem em Fada do Dente, em Monstros debaixo da cama, nem em Lobo Mau _ hoje sei que eles existem e estão por toda parte. Acredito em Deus, mas também acredito em Lobisomem, em Vampiros e Bruxas.

Gosto de repetir caminhos, pratos, tarefas, músicas e cortes de cabelo. Ando sempre com uma agenda e uma lapiseira na bolsa, não tenho senso de direção e gosto de cozinhar e contar histórias, seja aqui, no trabalho ou na catequese. Sei tocar violão, desenhar e escrever, mas as prioridades me levaram o poder de saber administrar adequadamente meu tempo disponível.

A mãe da minha mãe chama-se Fátima, é morena de sardas, magra e sabe muito bem limpar uma casa e instumentar cirurgias. Ela é uma das mulheres mais guerreiras de que já tive conhecimento _ teve três filhas, terminou o colégio quando elas estavam grandes e só parou de trabalhar fora porque o coração quis assim.

Meu pai se chama José e tem sobrancelhas grossas. O homem que eu mais admiro no mundo, pois, por mais que viajasse e ficasse longe de casa, sempre acabava voltando. O destino o fez parar de viajar, mas a mente dele sempre anda por aí!

Minhas irmãs se chamam Kelly e Cristina. Uma mais nova e outra mais velha. Uma de câncer, outra de Touro. Até no signo eu fico no meio, pois sou geminiana. Nos amamos, nos odiamos na infância. Hoje a Kelly é enfermeira, já comprou o apartamento dela, tem milhões de bizuzuis (traduzindo: gatos) e quer dar aula em alguma universidade. A Cristina nasceu pra ser mulher de homem rico, mas casou com o Dadá que é super gente boa e é mãe da Antônia!

Se um dia me pedirem para me descrever, eu acho que não saberia. A impressão que eu tenho é que eu não sei quem eu sou. Na verdade, eu não sei quem sou. Acho que ninguém sabe, ao certo, quem é. Eu posso ser uma Michele diferente para cada pessoa, tudo está nos olhos de quem vê.

Tenho muitas caixas que guardam recordações da infância e adolescência, faço coleção de papéis velhos, amo assistir clipes musicais, não dispenso nada, nem MPB, rock, samba, sertanejo e curto uma boa soneca. Observo a Lua todas as noites, tenho o mesmo travesseiro desde pequena, não tenho frescura pra comida, sou bastante indecisa e leio rótulo de shampoo no banho. Faço as unhas das mãos toda semana e dos pés a cada 15 dias, faço depilação uma vez por mês, meu notebook é um macintosch que se chama lata velha  e meu porta-moedas é uma vaquinha chamada Adelaide.

Sou do tipo de pessoa que não sabe o que quer, mas sabe muito bem o que não quer. Busco amor em tudo e levo alegria onde posso. Sou tímida e desinibida ao mesmo tempo, quando choro ninguém percebe, mas quando dou risada, até o papa escuta. De TPM, sou capaz de mandar um longe e depois pedir perdão de joelhos.

Teimosia? Acho que tenho pelo menos umas 5 vezes o nível recomendado. Já sofri e já fugi do amor, já tentei amar e não consegui. Dei chances e valor a quem não merecia, julguei e fui julgada, me enganei e fui enganada.

Ainda não aprendi a aplicar minhas teorias em minha própria vida. Gosto do cheiro do feijão fugindo pela panela de pressão e cheiro de natureza, amo o mar e um bom livro. Amo meus amigos e faço pós em História e Comunicação.

Um dos meus maiores sonhos é conhecer o mundo com uma mochila nas costas. Ainda vou ter tocar violão na frente de todo mundo e pular de pára-quedas, comprar uma casa na praia para minha família, uma casinha no interior para me refugiar e uma moto para enlouquecer de vez a minha mãe.

Em maio deste ano, minha irmã deu a luz à primeira neta da minha mãe. No sábado, a Totonha deu um baita sorriso pra mim. Quase chorei!