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Ironia do destino ou não, a última herança que Glauco deixou tinha logo uma arma como personagem principal:

Reprodução Folha Online

A morte é tão certa quanto a velhice. A diferença entre elas, é que a primeira pode vir antes e não dar chance da segunda acontecer. Minha família por parte de pai era enorme. Ele é o caçula de sete irmãos. Enterrou quase todos. Essa semana, ele teve que dizer adeus ao meu tio Claudino, na terra dos coronéis e da melhor linguiça: São Gabriel.

Segurando-o um em cada braço, o levamos para perto do caixão.

— Como ele tá magro — disse.

Meu tio estava com câncer de estômago, o que o impediu de se alimentar nos últimos dias. Apesar das circunstância difíceis dos últimos tempos, tio Claudino não tinha do que reclamar. Era pai de dois homens e quatro mulheres. Muitos netos e, até, bisnetos. Tinha 82 anos, a maioria deles com saúde e mais de 50 deles casado com a minha tia, que morreu um pouco junto com ele naquele dia. Usando pantufas, ela foi conduzida devagarinho até o túmulo dele. Era o único choro que se ouvia naquele trajeto. Um choro contido, de quem já não tinha mais forças.

A Tânia, uma das minhas primas, não dormiu um único dia enquanto ele esteve no hospital. Ia para casa apenas para tomar banho. Segurando forte a minha mão, desabafou:

— A gente só tem noção da dor quando acontece com a gente.

Ela morou toda a vida com ele. Casou e se mudou para a casa da frente. Não imaginava a vida sem o pai por perto. Apesar do empenho, não foi nos braços dela que ele deu o último suspiro, mas sim da Clara, irmã dela, que mora em Porto Alegre e viajou às pressas para se despedir. Na verdade, acho que ele apenas estava esperando por isso para partir.

No cemitério, revi pelas fotos dos túmulos os rostos que conheci quando era criança, mas que hoje o semblante já não me era claro na memória. Chorei ao ver a minha avó, os tios, e até pelas pessoas que não conhecia, pois achei deprimente que pessoas que foram tão especiais e viveram tão intensamente terminar atrás de um pequeno muro de concreto com uma lápide escrita apenas o nome e a data de suas primaveras.

A situação não era a melhor, mas foi bom rever a família que mora longe. Mesmo sabendo que, com a morte do último irmão do meu pai, talvez eu não volte pra lá.

***

Ao voltar, liguei para uma amiga, já que tínhamos combinado de sair. A voz baixa e chorosa me deixou desconfiada. Perguntei se estava tudo bem e soube que não foi só o meu tio que havia dado adeus a este mundo. Mariana Regal, publicitária de 24 anos, que se formou no mesmo ano que eu, teve um aneurisma e não resistiu. Não é fácil entender porque uma menina tão nova, cheia de sonhos pela frente partiu assim.

Segundo minha amiga, a cena mais dolorosa não foi ver o corpo dela no caixão, mas sim se deparar com os pais dela tendo que passar por isso. Não é a ordem natural das coisas. Nós é que devemos enterrar nossos pais, e não eles verem morrer a quem deram a vida!

Os caminhos de Deus são misteriosos, não dá para entender as coisas no momento em que elas acontecem. Um dia uma amiga teve que viajar pra longe e sabia que os pais dela estavam tristes com isso. Como queria ajudar, perguntei se eles precisavam de alguma coisa, minha amiga respondeu:

— Eles precisam de uma filha, Mi. Quer ficar no meu lugar?

Putz. Aquilo me partiu o coração. Minha amiga sabia que ninguém poderia dar o que eles queriam. Bastava que eles aceitassem o fato. Mas lembrei da resposta dela ao saber do caso da Mari. O que os pais dela queriam era ter a filha de volta, o que já não vai ser possível. O que resta é desejar-lhes força para que com o tempo a dor da perda seja amenizada e eles saibam viver apenas com as lembranças e a saudade.

Para pensar…

...a gente só ama aquilo que conhece!!

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