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Não há coisa mais clichê do que sentir saudade, pois ela é óbvia quando há um afastamento, mesmo que curto. Mas mais do que a obviedade da saudade, o que realmente mexe com a alma são os sonhos que ela gera. Sentir a pessoa praticamente ao lado e, na verdade, ela não estar ali é uma realidade doída demais para um coração aguentar. Acho que é por isso que a mente tenta amenizar essa sensação criando a ilusão do reencontro. Na verdade, é a minha saudade saudando o sonho da volta dele.

Mesmo antes da partida, a saudade já tinha se manifestado. No início ela é até boa, mas com o passar dos dias ela sufoca. Engasga. Dá ardência nos olhos. Incomoda. Não deixa fazer nada direito. Cada pessoa que passa se parece com ele. Cada letra de música tem uma parte que lembra ele. Isso porque ele preencheu um espaço que estava vazio há muito tempo.

Enquanto isso, no reino do escuro e do silêncio do quarto, meu corpo não para procurando o dele. A cabeça manda, mas o corpo não obedece, quer sair de mim pra procurá-lo e entrar em contato, por mais distante que ele possa estar. Nesse embalo, braços e pernas se encostam, me tocam. Minha mente sabe que sou eu, mas pede a Deus que seja ele, e meus pêlos vibram com cada movimento imaginando o sorriso safado que só ele faz pra mim.

Se é pelas minhas lembranças que a saudade entra, também é por elas que a expectativa de vê-lo novamente aumenta. Deve ser porque quando estou nos braços dele é como se existisse um barreira, invisível, que me protege, me aquece, me faz sentir viva, por mais viva que eu já esteja, só que antes eu não percebia.

Eu sei que daqui a pouco ele virá. É o que eu procuro me repetir a todo instante. E, nesse instante, minha saudade o abraçará e se despedirá de mim.

Mas enquanto ele não vem, eu escrevo. Essa é a minha melhor forma de exorcizar essa falta que ele me faz.

O coração sente falta, a cabeça não me obedece e fica trazendo na mente quem já foi embora sem dizer adeus…

Fuçando hoje no orkut, me deparei com a foto de alguém que não está mais aqui de corpo presente. Há mais ou menos dois anos, um atropelamento levou embora um grande amigo meu. Grande muito mais pela pessoa e pelo caráter do que pelo que vivemos juntos, que foi muito pouco.

Fiquei pensando na tristeza e na saudade que a família sente por ver ali, naquele espaço virtual, grande parte da vida dele registrada, mas sem ter ele por perto para compartilhar. São fotos, depoimentos e mensagens de amigos que nunca o esquecerão. Amigos que mesmo depois de tanto tempo ainda deixam mensagens de carinho e de saudade, mesmo sabendo que não receberão nenhuma resposta.

Da morte dele, fiquei sabendo dois dias depois pelo jornal. Pela primeira vez, uma matéria minha ganhava o abre da editoria e, qual não foi a minha surpresa, ao ver ao lado da página uma foto do Bruno. De cara pensei: ganhou um prêmio. Mas meu cérebro não queria processar as informações do título que insistiam em piscar diante dos meus olhos.

Ele tinha saído para andar de bicicleta. Não levou documentos, carteira, dinheiro, nada. Ele olhou para os dois lados para atravessar a Osvaldo Aranha, mas o motorista do táxi não olhou pra ele. Horas passaram e a família começou a ficar aflita, pois a noite chegou, o Bruno não.

A partir dali, um busca desesperada para saber do paradeiro dele começou. Ligações para amigos, parentes. Depois para delegacias, hospitais e, enfim, na madrugada, para o Instituto Médico Legal, que confirmou a chegada de um corpo com todas as características descritas.

Nem precisou a família dizer alguma coisa quando saiu de lá. Isso era madrugada de domingo. Ele foi enterrado de tarde. Eu soube na segunda de manhã.

Muitas coisas mudaram desde então. Não só para a família do Bruno, mas para todos os amigos que conviviam com ele. No velório, conheci o avô daquele menino. Nossa, era como se eu o visse com 60 anos. Me doeu ver aquele senhor, de suspensório, chorar como um bebê a partida repentina do neto.

Na formatura da turma dele, os pais foram homenageados, merecidamente. Fui para prestigiar uma colega, mas não passei dali, pois a sensação de saudade foi maior que qualquer coisa!

O título desse post é o resumo do perfil que ele mesmo escreveu no orkut. Queria ter feito mais. Ter dado mais risada com ele. Tê-lo abraçado mais. Ter dançado com ele na minha formatura, mas nada disso foi possível. O que me resta, é aproveitar cada dia mais os amigos que ficaram, dar a eles mais atenção, mais carinho, mais colo e não deixar de fazer algo que martela na minha cabeça até hoje, como disse uma amiga: “Queria ter aceitado o convite pra subir mais vezes”.

Para pensar…

...a gente só ama aquilo que conhece!!

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